Poesia

Hoje é dia / de poesia / não dissera / quem diria?

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A lua e a rua

Ontem voltei pra casa com uma companhia doce e quase ignorada: a lua cheia. Impossível não vê-la, tão branca e brilhante, no céu; e no meu carro, no caminho de volta pra casa, eu olhava ao redor, sorrindo, como quem diz “olha que lindo” — e, aparentemente, ninguém olhava pra mim ou pra ela.

Aí comecei a lembrar-me de fatos corriqueiros dos quais eu parecia ser a única testemunha. Lembrei-me do mendigo que achou uma moeda dourada e brilhante, que afagou para aumentar-lhe o brilho, guardando-a como quem guarda um tesouro; não pelo valor, nem pelo que compra, mas por bela que era em seu brilho, sua forma, sua simples existência — a moeda não como dinheiro, mas simplesmente como moeda.

Lembrei-me da moça num vestido simples e singelo, a correr descalça na chuva, sentindo a água no rosto, no corpo, nos pés, depois de semanas de seca; da flor solitária que caiu no banco de meu carro quando abri a porta; das folhas verdes e claras de uma árvore viçosa, no meio da avenida movimentada, balançando ao vento, intocadas pelo stress da cidade grande.

Lembrei-me do taxista saindo do seu carro, e abrindo o porta-malas com um ar de fascinação; tirando de lá, em seguida, uma clarineta, que tocou por alguns segundos, como quem saboreia um bom vinho — ainda que a tocasse como quem se esconde para não incomodar ninguém. E o vi guardando a clarineta enquanto murmurava a melodia que acabava de tocar, como se experimentasse com sons e memórias, esperanças e saudades, voltando feliz pra dentro do carro, quase alheio ao trânsito impiedoso e assassino que haveria de enfrentar.

E aí percebi que a poesia cotidiana nem sempre se nota; antes, na maior parte do tempo, simplesmente a deixamos passar, por estarmos tão ocupados, correndo, gritando, morrendo.

E da mesma forma deixamos passar a vida, tão clara e brilhante quanto a lua no céu, e tão passageira quanto ela. A lua, entretanto, estará cheia novamente no mês que vem, o mendigo achará outra moeda (talvez mais bela); e haverá seca e chuva, música e primavera, prosa e poesia. Mas a vida, só se perde (ou se ganha) uma vez.

Hoje volto pra casa com a lua de novo; lua cheia, vida cheia, e um pouco mais de poesia no peito.

Pétala

Parei embaixo da árvore.

Em todo lugar, pétalas caídas ao chão, ainda brancas e macias, mas mortas.

Entretanto, sem vento nem brisa, uma delas começou a voar.

Subia, descia, fazia voltas ao meu redor.

Era um pedacinho de vida em meio à morte, uma flor viva no ar e no céu.

Era uma borboleta.

E o meu dia ficou mais bonito.

Gripe

Sou eu que deixo-te doente. Sou eu que invado teu corpo, que me multiplico aos milhares, milhões, até bilhões, me alimentando de ti mesma; que desfaço o delicado equilíbrio, aumentando tua temperatura, diminuindo a capacidade de teus pulmões; fazendo-te adoecer, dando-te dor e fraqueza. Às vezes tentas expulsar-nos, mas somos resilientes e demasiadamente numerosos.

Mas há aqueles entre nós que não gostariam de deixar-te assim. Que gostariam de não deixar-te doente, mas de conviver alegremente contigo, com teus abundantes recursos, sem ter que ferir-te. Há alguns que se arrependem de todo o mal que nossa espécie causou a ti. Afinal, somos nós os invasores.

Por isso, Terra, perdão. Nós, humanos, somos tua doença; que achemos em ti, em nós, e principalmente no Criador, a cura; para que o delicado equilíbrio se restabeleça, e nenhum de nós esteja mais doente, no corpo ou na alma.