Poesia

Hoje é dia / de poesia / não dissera / quem diria?

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O pescador

Estava ali, o pescador.
Sentia e conhecia o vento,
Conversava com os peixes;
Tinha o oceano, o mar nos olhos.

Tinha a alma azul do mar, do céu,
E o coração batia como onda;
Seu sangue, uma corrente salgada,
Carregava ar como se água fosse.

Chorava ao voltar para a terra;
Sonhava com o mar, com o vento,
Um sonho azul, de ar e de água;
Sonhava com o lar, com saudade.

Um dia ele foi
E não voltou mais.
E sua alma descansou, feliz,
Em paz.

Isabella

O ar acolheu o seu choro,
O vento secou suas lágrimas.
E enquanto voava
A menina lembrava
De sua pequena história
Sem glória, tão perto do fim.

E voa a menina,
Tal como uma folha
Levada ao vento,
Caindo no outono
De um Março qualquer.
Já não lhe doíam as feridas
Nem mesmo a lembrança
De ser só criança
Num mundo ruim.

E quando aterrisa
A brisa, ferida,
Pára de soprar;
Só sobram os gritos,
Rugidos, sirenes,
Só resta a lembrança
Do mundo criança
Num mundo sem glória,
Sem história,
Carente
De amor
E de paz.

Desastre menino

“Esse menino é um desastre
Esperando pra acontecer.”

E o desastre nem ouve.
Só brinca e explora
O seu próprio mundo
Relevando o nosso.
Desastre que cria,
Que faz, que acontece,
Que ri, que padece,
Desastre inocente,
Carente de amor;
Desastre menino
Um dia desastre
Pra um mundo caído,
Repleto de dor;
Desastre ao ser livre
Num mundo cativo,
Desastre ao ser bom
Nesse mundo de horror.

E cresce o desastre,
Já homem menino;
Não segue o cinismo
A lhe rodear.
Mas cria, e muda,
E faz, e acontece,
E ri, e padece;
O amor que faltara
Agora lhe sobra
No bom coração.
Não dura o menino,
Desastre que era;
Encontra o destino,
Desastre pintado
Nas letras da nota
No fim do jornal:

“Desastre: Menino
Ajuda um estranho
No meio da noite;
Ferido de morte,
Perdoa o assassino,
Desmaia de dor.”
Desastre menino!
Já brinca e explora
O seu próprio mundo:
Venceu pelo amor.

O tempo e o vento

O vento só existe
Enquanto se move.
É assim que é sentido,
Só assim tem sentido;
O vento não pára.

O tempo só existe
Enquanto se move.
É assim que é sentido,
Só assim tem sentido;
O tempo não pára.

No sopro do tempo
É que alguém existe;
O ar mais o tempo,
E o vento se move;
Percebe-se o tempo
No vento sentido…
No tempo perdido,
Qual é o sentido?
No tempo e no vento,
A vida não pára.

Da essência

Poesia não é o que eu escrevo;
É o que me faz escrever

Haikai de Outono

Sopra o vento
Ouve-se um ruído:
As folhas mortas

Soneto Platônico

A palavra mais linda e mais pura
É a que se intui, não a dita:
Pois que sem ruído é bonita,
Perfeita, ideal, sem mistura.

Pois sem os limites audíveis
É um sentimento intocado;
Que assim se propaga, calado,
Capaz de façanhas incríveis;

Pois nada é tão bom para a alma,
Nem fala tão perfeitamente,
Nem toca o mais fundo do peito;

É a brisa mais doce e mais calma
Que não se escuta, se sente;
Perfeita em forma e em efeito.

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