A lua e a rua
Ontem voltei pra casa com uma companhia doce e quase ignorada: a lua cheia. Impossível não vê-la, tão branca e brilhante, no céu; e no meu carro, no caminho de volta pra casa, eu olhava ao redor, sorrindo, como quem diz “olha que lindo” — e, aparentemente, ninguém olhava pra mim ou pra ela.
Aí comecei a lembrar-me de fatos corriqueiros dos quais eu parecia ser a única testemunha. Lembrei-me do mendigo que achou uma moeda dourada e brilhante, que afagou para aumentar-lhe o brilho, guardando-a como quem guarda um tesouro; não pelo valor, nem pelo que compra, mas por bela que era em seu brilho, sua forma, sua simples existência — a moeda não como dinheiro, mas simplesmente como moeda.
Lembrei-me da moça num vestido simples e singelo, a correr descalça na chuva, sentindo a água no rosto, no corpo, nos pés, depois de semanas de seca; da flor solitária que caiu no banco de meu carro quando abri a porta; das folhas verdes e claras de uma árvore viçosa, no meio da avenida movimentada, balançando ao vento, intocadas pelo stress da cidade grande.
Lembrei-me do taxista saindo do seu carro, e abrindo o porta-malas com um ar de fascinação; tirando de lá, em seguida, uma clarineta, que tocou por alguns segundos, como quem saboreia um bom vinho — ainda que a tocasse como quem se esconde para não incomodar ninguém. E o vi guardando a clarineta enquanto murmurava a melodia que acabava de tocar, como se experimentasse com sons e memórias, esperanças e saudades, voltando feliz pra dentro do carro, quase alheio ao trânsito impiedoso e assassino que haveria de enfrentar.
E aí percebi que a poesia cotidiana nem sempre se nota; antes, na maior parte do tempo, simplesmente a deixamos passar, por estarmos tão ocupados, correndo, gritando, morrendo.
E da mesma forma deixamos passar a vida, tão clara e brilhante quanto a lua no céu, e tão passageira quanto ela. A lua, entretanto, estará cheia novamente no mês que vem, o mendigo achará outra moeda (talvez mais bela); e haverá seca e chuva, música e primavera, prosa e poesia. Mas a vida, só se perde (ou se ganha) uma vez.
Hoje volto pra casa com a lua de novo; lua cheia, vida cheia, e um pouco mais de poesia no peito.
eu gostei muito da poesia parabens
andei lendo seus ditos (entrei em busca de poema sobre água).
fiquei encantada com sua sensibilidade e sabedoria no lidar com as palavras.
parabens!
izaira
Oi Izaira,
Obrigado pelas palavras. Um abraço!
Roberto
Que lindo! Acabei me lembrando de uma convicção (raramente posta em prática): é preciso olhar a vida com os olhos de um poeta! Que bom que você conseguiu! :-*
Que bom que existem poetas que abrem os nossos olhos para a poesia da vida!Que tocam a nossa sensibilidade, na maioria da vezes sufocada por um cotidiano de trabalho, preocupações, pressa!
Eu, hoje, também me permito um pouco mais de poesia, graças a você.
Oi, Roberto!
Adorei tudo que li, no teu site!
Obrigada pela indicação do Roccana!
Feliz 2008!
(Publiquei a tua poesia “Virada” no meu blog.)
Um abraço,
Ana
Sou apaixonada pela lua e adorei esse poema, parabéns.
Oi Mineiro como eu….
estou encantada, aqui é um enleio.
Parabéns.
Adorei! e concordo inteiramente que a poesia está na vida, na perceber, no admirar, no sentir, no amar…
Ser poeta é deixar transparecer
tudo aquilo que a maioria das pessoas tenta esconder…
Não sou poeta
mas, extravaso sentimentos!
luz pra ti!