Poesia

Hoje é dia / de poesia / não dissera / quem diria?

Archive for September, 2007

A lua e a rua

Ontem voltei pra casa com uma companhia doce e quase ignorada: a lua cheia. Impossível não vê-la, tão branca e brilhante, no céu; e no meu carro, no caminho de volta pra casa, eu olhava ao redor, sorrindo, como quem diz “olha que lindo” — e, aparentemente, ninguém olhava pra mim ou pra ela.

Aí comecei a lembrar-me de fatos corriqueiros dos quais eu parecia ser a única testemunha. Lembrei-me do mendigo que achou uma moeda dourada e brilhante, que afagou para aumentar-lhe o brilho, guardando-a como quem guarda um tesouro; não pelo valor, nem pelo que compra, mas por bela que era em seu brilho, sua forma, sua simples existência — a moeda não como dinheiro, mas simplesmente como moeda.

Lembrei-me da moça num vestido simples e singelo, a correr descalça na chuva, sentindo a água no rosto, no corpo, nos pés, depois de semanas de seca; da flor solitária que caiu no banco de meu carro quando abri a porta; das folhas verdes e claras de uma árvore viçosa, no meio da avenida movimentada, balançando ao vento, intocadas pelo stress da cidade grande.

Lembrei-me do taxista saindo do seu carro, e abrindo o porta-malas com um ar de fascinação; tirando de lá, em seguida, uma clarineta, que tocou por alguns segundos, como quem saboreia um bom vinho — ainda que a tocasse como quem se esconde para não incomodar ninguém. E o vi guardando a clarineta enquanto murmurava a melodia que acabava de tocar, como se experimentasse com sons e memórias, esperanças e saudades, voltando feliz pra dentro do carro, quase alheio ao trânsito impiedoso e assassino que haveria de enfrentar.

E aí percebi que a poesia cotidiana nem sempre se nota; antes, na maior parte do tempo, simplesmente a deixamos passar, por estarmos tão ocupados, correndo, gritando, morrendo.

E da mesma forma deixamos passar a vida, tão clara e brilhante quanto a lua no céu, e tão passageira quanto ela. A lua, entretanto, estará cheia novamente no mês que vem, o mendigo achará outra moeda (talvez mais bela); e haverá seca e chuva, música e primavera, prosa e poesia. Mas a vida, só se perde (ou se ganha) uma vez.

Hoje volto pra casa com a lua de novo; lua cheia, vida cheia, e um pouco mais de poesia no peito.