Poesia

Hoje é dia / de poesia / não dissera / quem diria?

Archive for September, 2006

Carta de mim para mim mesmo

Olá, não me conheces.
Mas sabes quem fui, o que pensei,
E quando eu ri, quando chorei,
Conheces minha vida e minha história.
Tua memória é minha
Teu futuro, meu passado
Teu anseio, meu cansaço
Do que seria e não fui
Do que serás, pra mim e pra ti.

Se aceitares o conselho
De um velho, todavia,
Eis aqui o que te digo,
O que tu mesmo te dirias:

Vive a vida, é teu presente.
Que futuro e passado não importam;
Só importa o que tu és,
Pois nada mais trago comigo;
O que sou, o que não és,
É também o que me faz ser teu amigo.
Que somos um,
Um só, e o mesmo
E ainda, mesmo assim,
Não me conheces.

Ainda é tempo; e que o tempo,
Esse velho companheiro,
Seja tão só teu amigo,
E não senhor;
Nem do que foi ou que virá,
Nem mesmo do que entre nós persiste;
Nem do tempo que há entre mim e ti,
Nem mesmo do que agora não existe;

Que sejas tal como eu sou
E eu seja tal como tu és
Que venhas a me conhecer
Como eu também conheço a ti.

Até mais ver.

Ruidos de la calle

Pneus no asfalto
Buzinas, sirenes
Barulho alto
Um gato mia
Outro arrepia
Cachorro late
Chora e uiva
Pra lua?

Passos tranquilos
Corridas
Pessoas sentadas,
Conversam e riem
O menino tropeça
E chora.
Crianças vão tristes pra escola.

A noite a tudo encerra.
Terrível silêncio
Da rua embaixo da rua;
Da terra coberta de asfalto
Dos pés sujos, descalços
Do som do pião, do seu giro
Mais lento que o mundo de hoje.

No fundo, no fundo, ruídos à parte,
A rua chora de saudade.