Poesia

Hoje é dia / de poesia / não dissera / quem diria?

Archive for March, 2006

O outro Jonas

A fina e vital superfície
Rompeu-se com grande tumulto
À entrada do intruso insolente;
Um homem, vivente da terra,

Se põe a invadir nosso mundo!
O corpo que treme e que luta
Por ar, por ajuda, vê a vida
Tentando escapar por seus olhos;

E enfim, já vencido da água,
Põe o derradeiro suspiro
Em bolha singela e azulada,
Qual peça da mais fina arte;

Que o homem saiu do seu mundo,
Entrando insolente no nosso;
Agora adentra outro mundo
Do qual desde sempre fez parte.

Contos, Pizzas, Infâmia

Caíram, cassados, caçados
Aqueles que se recusaram
A compartilhar sua caça
Com a impiedosa alcatéia.
Ficamos, ovelhas, pasmados
Diante da grande e vil tenda
As casas e pratos virados:
Retrato da nossa esperança?

Com tantas vovós, chapéuzinhos,
Somente prosperam os lobos,
Que delas se fartam e arrotam
Projetos de lei infundados,
Palavras vazias, mentiras
De peitos vazios, ausentes
De todo amor ou justiça;
Somente ganância e preguiça.

E o povo nem mesmo percebe
Que é ele mesmo a massa,
O molho, até a muzzarela,
Da pizza gigante e indigesta;
E ficam aqui os porquinhos,
Tentando erguer suas casas
Que os lobos assopram e derrubam
Se rindo do nosso esforço;

E o circo montado graceja,
Também arrogante contesta
O fim desse conto de fadas,
Pois final feliz não se espera;
Somente um povo comido,
Cuspido, pisado, sofrido;
Um povo à mercê do perigo
Daqueles que o representam.

E qual é a lição de moral?
Que o ser humano não presta,
Que o povo não se interessa
No bem de si mesmo ou do outro;
Não é tão estranho esse conto,
Pois que ao final dessa história,
Na nossa vergonha inglória,
Levamos o que merecemos.

Amor de outono

Quando as almas se enlaçam
O calor, se não o mesmo,
Se entranha;
Passam folhas, passam flores
Mas o tronco e as raízes
Permanecem,
Sobrevivem ao inverno
E florescem
Ao chegar
A primavera.
Amor que espera,
Amor que entende
Que aquece
Sem ser quente
Confortável, ternamente
Se afirma
Em valores permanentes
Na raiz do sentimento
E do tempo.
Amor de outono
Tão ameno,
Duradouro,
Tão dourado
E precioso
Vence o inverno,
A dor e a morte;
Amor eterno.

Equinócio Acróstico

(essa é para os amigos no hemisfério Norte)

Possa eu agora
Respirar contente;
Inverno insolente,
Murchando e sumindo
Atrás do equinócio.
Verde que renova,
Esperança tardia;
Renova-se a vida,
Acróstica e linda.

Equinócio

Todos
Verão
A natureza que exulta
Despede-se, adulta
E chega ao caminho
A fim de encontrar-se
Por sorte
Na morte
De folhas, de flores,
Calor e marasmo;
E o ócio
Equinócio
Anuncia
O ciclo
Equilíbrio
Servil
E eterno,
Harmonia
Em metades:
Outono,
Prenúncio
Do inverno.

Gripe

Sou eu que deixo-te doente. Sou eu que invado teu corpo, que me multiplico aos milhares, milhões, até bilhões, me alimentando de ti mesma; que desfaço o delicado equilíbrio, aumentando tua temperatura, diminuindo a capacidade de teus pulmões; fazendo-te adoecer, dando-te dor e fraqueza. Às vezes tentas expulsar-nos, mas somos resilientes e demasiadamente numerosos.

Mas há aqueles entre nós que não gostariam de deixar-te assim. Que gostariam de não deixar-te doente, mas de conviver alegremente contigo, com teus abundantes recursos, sem ter que ferir-te. Há alguns que se arrependem de todo o mal que nossa espécie causou a ti. Afinal, somos nós os invasores.

Por isso, Terra, perdão. Nós, humanos, somos tua doença; que achemos em ti, em nós, e principalmente no Criador, a cura; para que o delicado equilíbrio se restabeleça, e nenhum de nós esteja mais doente, no corpo ou na alma.

Flor

Flor

Flor
Tão suave
Tão frágil
Se alterna
Efêmera
E terna

Flor
No vento
É perfume
Direção
Ao sol é
Cor ação

Flor
Ao vento
As pétalas
Se vão
Mãe luz
Pai chão

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