Poesia

Hoje é dia / de poesia / não dissera / quem diria?

Nem tão em branco

Ontem comprei um cartão de memória para a minha nova máquina digital, numa loja a mim recomendada por alguém. Recebi a encomenda em meu trabalho, feliz, na expectativa de centenas e centenas de fotos que provavelmente não vou tirar tão cedo; ou seja, com aquela expectativa irreal e exagerada que sempre acompanha um brinquedo novo.

Chego em casa, pego a câmera, e coloco o cartão com cuidado e afeto. E daí se a embalagem parecia ligeiramente adulterada? O cartão parecia perfeito, completo nos seus 512 MB de memória, capaz de concentrar nele a poesia de imagens banais e corriqueiras, instantâneos do tempo e do espaço. Liguei a câmera.

Estranho. Já há fotos no cartão? Será a máquina de fato uma máquina do tempo, guardando em si desde já todas as fotos com que sonhei, no passado, presente e futuro? Mas não sou eu nas fotos. O tom austero, a calvície progressiva, os óculos finos num rosto magro - talvez seja parecido comigo no futuro, mas não sou eu. E quem são essas outras pessoas? Uma família indistinta, tão comum que nem sei de que país é. Sinto-me um invasor da intimidade dessas pessoas, tanto quanto elas são invasoras do meu sonho; minha câmera foi violada pelos momentos de outrem!

Deixo a culpa, a dúvida e a decepção pra trás, e começo a buscar nas fotos alguma pista de quem são essas pessoas, ou pelo menos de onde são - mas a máquina, justa e impiedosa, me alerta com um erro de leitura. Erro na formatação, diz ela. Um arrepio me desce pela espinha. O cartão que eu pensava ser uma folha em branco, onde eu pintaria momentos especiais (ou nem tanto), era uma folha já rabiscada; estaria agora também rasgada, suja, defeituosa?

Decido dar uma chance ao destino. Procuro na câmera a função de formatação do cartão. Formatar? Sim. Aperto o botão, e em momentos tudo aquilo era passado, uma nódoa na minha memória - pessoas e momentos perdidos no deslocar de alguns elétrons, tão pequenos que são invisíveis, tão inevitavelmente poderosos quando um choque de planetas. Formatação completada; nenhuma imagem. Uma folha em branco!

Comecei a tirar fotos a esmo, para testar a câmera e o meu novo cartão. Minha esposa, com uma cara triste que significava “larga isso um minuto” (e que eu solenemente ignorei, para minha própria perda). Detalhes do meu escritório, da sala, do quarto; até dos meus chinelos largos e já não tão novos.

Isso feito, preparo a câmera para transferir as imagens para o computador, para que eu possa analisar melhor a qualidade da câmera, para ver todos os megapixels pelos quais paguei. Tudo pronto, começo a copiar as fotos e… que mensagem é essa?… imagem corrompida?

Meu pequeno mundo digital - feito de pixels instantâneos, incorpóreos, insolentes e corrompidos - caiu.

Hoje troquei o cartão defeituoso por um de fato em branco, que com sorte funcionará perfeitamente. Mas cada vez mais chego à conclusão de que foto nenhuma, digital ou não, substitui a memória, a experiência daqueles que amamos. Ainda que essa memória não seja tão nítida e colorida, e ainda que se degrade com facilidade (especialmente em seus detalhes)… ela é certamente mais humana. Hoje vou deixar a câmera de lado, e tentar gravar nos megapixels da minha mente, não o rosto triste da minha esposa, mas a carinha feliz que só ela sabe fazer quando estamos juntos. E que não irá jamais parar por engano na mente ou na câmera de outra pessoa.

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