2 de September de 2005
A sexta e a lua
E chega
Na sexta
A lua,
Tão nua,
A rocha
Distante,
Se esconde
Na luz;
E chega
Na luz
Minha cara,
Distante,
Minh’ alma,
Tão nua,
Se esconde
Na sexta.
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E chega
Na sexta
A lua,
Tão nua,
A rocha
Distante,
Se esconde
Na luz;
E chega
Na luz
Minha cara,
Distante,
Minh’ alma,
Tão nua,
Se esconde
Na sexta.
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Enorme, soberana, altaneira,
A árvore se eleva, centenária,
Incólume ao nosso burburinho,
Ao som da nossa estupidez diária.
E ela é testemunha de uma era,
Da vida vã de muitos como nós,
Que a viram quando ainda era pequena,
Quando ninguém jamais estava a sós.
Em seu tronco agora velho há escrita
Uma declaração de amor singela
Perdida, já, no tempo e no espaço:
“Amor eterno e lindo, eu e ela”
Aquele que escreveu tão simples frase
Por certo já não vive, afinal…
E aquele amor que a ela dirigia
Levou dentro do peito até o final.
O tronco agora pende, solitário,
No centro de uma grande e vil cidade,
Manchado do negrume do asfalto,
Mas nobre no penhor da sua idade;
Perdido na floresta de cimento,
E como se não fosse natural,
Recorda que houve um tempo bem mais simples,
Mais leve, mais humano, mais normal.
Um tempo em que o tempo era mais lento,
Um tempo em que a vida era vivida;
Um tempo em que o homem não passava
Frenético, letárgico em sua lida.
Enquanto a contemplo, o tempo pára;
Percebo o milagre que perdemos
A todo e cada dia, em nossa pressa,
A não viver a vida que vivemos…
Quem dera ela fosse a testemunha
De uma humanidade mais humana.
Pois tudo que lhe resta agora em vida
É o tempo de só mais uma semana;
Pois ela não condiz com a cidade,
Ou o homem que habita nesta terra;
E achará seu fim na nossa infâmia,
Vencida pela feroz motosserra.
E se ela viveu por tantos anos,
Testemunhando a vã febre do homem,
Agora testemunho a sua morte,
E os dentes de metal que o tronco comem;
E julgo ouvir um grito na minha alma;
O grito dos amantes solitários,
O som macabro das almas humanas
Perdidas entre sons e sonhos vários…
A grande testemunha jaz, tombada,
E se transformará em lenha, ou em móvel
Mas cá estou como a velha árvore
Sozinho, enegrecido, e imóvel.
Em que se transformou o ser humano?
Porque se fez tão cego, tão mesquinho?
Pois não só já perdeu a sua alma,
Como aqui viverá, em dor, sozinho.
Elevo a minha alma renovada,
Aponto para o céu que ela apontava;
Talvez assim possa ganhar minh’ alma,
E volte ao estado em que estava:
Quando o mundo ainda era criança,
E a paz vivia plena em nossa alma
Um tempo em que o homem e a árvore
Cresciam, em silêncio, e com calma;
Um tempo em que o amor era vivido,
Um tempo com um homem inocente…
Um tempo em que o coração do homem
Ainda tinha sangue, e era quente;
Um tempo em que o homem se sabia
Ser parte dessa linda natureza
E que vivia em franca harmonia,
Achando no amor a sua certeza.
Se a árvore mostrou-me o começo,
Aos outros pode mostrar o seu fim;
Aprendamos a lição que ela nos deixa,
Para que não vivamos mais assim.
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O vento que cortava
Agora embala e refresca;
O sol que só brilhava
Agora arde e nos queima;
O mesmo ar que gelava
Agora envolve e acende…
Quem dera houvesse inverno assim
no coração do homem.
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