O balão do mal

Original em: http://sundaughter.livejournal.com/11034.html

Na semana passada, durante uma viagem, eu parei numa loja Zany Brainy e vi que eles tinham um balão radiocontrolado à venda. Chamado “Airship Earth“, era um grande balão com um mapa da Terra nele, e duas hélices penduradas na parte de baixo. Você enche o balão com hélio, põe pilhas, e você tem então um balão controlado por rádio, para uso em ambientes fechados.

Eu já tinha visto isso à venda por 60 a 75 dólares, mas naquela loja o preço era 15 dólares! Imperdível.

Na noite anterior, minha esposa estava jogando tênis e estávamos apenas eu e a minha filha em casa. Nós compramos um pequeno tanque de hélio numa loja de artigos pra festa, e então montamos o balão.

Bom, eu tenho que dizer, é um balão e tanto. É imenso. O balão tinha cerca de 1 metro de diâmetro.

Nós o enchemos com o tanque, colocamos a gôndola com as hélices, e pusemos as pilhas no lugar.

Aí nós ajustamos o balão para que ele boiasse, sem subir nem descer, usando uns pesos que vieram com ele.

Foi fácil e divertido, e então eu enchi outro balão e fiquei imitando a voz do Pato Donald (por causa do hélio) com minha filha.

Minha filha (de três anos) adorou. Nós fizemos o balão voar a casa inteira, aterrorizando o cachorro, atacando o aquário, e os controles eram tão simples que minha filha podia controlá-lo sem problemas.

Tenho que admitir: balões são divertidos.

Entretanto, a diversão tinha que acabar, e minha filha tinha que ir dormir. Eu deixei o balão flutuando no meu escritório no primeiro andar. Minha esposa chegou, e fomos deitar, para dormir o sono dos justos.

Neste ponto é importante mencionar que minha casa tem aquecimento central. Eu tinha configurado o sistema pra soprar ar quente a partir do primeiro andar, para aproveitar o fato de que o ar quente sobe e aquecer, sem esforço, também o segundo andar.

O balão, que até então era um brinquedo divertido, embarcou em sua carreira maligna. Usando a convecção artificial gerada pelo aquecimento central, o balão esgueirou-se para fora do meu escritório. Ele se moveu silenciosamente pela sala e subiu pelas escadas. Pairando como um fantasma sobre a escada, ele finalmente entrou pela porta do quarto em que eu e minha esposa dormíamos em paz.

Correndo silenciosamente, e flutuando cerca de 2 metros acima do solo, usando pequenas e invisíveis correntes de ar, ele se aproximou da cama.

A despeito da falta de ruído (ou talvez por causa dela), eu acordei. Não, não foi bem assim. Vou tentar descrever melhor.

Eu acordei, da maneira que você acorda às 2 da manhã quando seus sentidos repentinamente lhe dizem que forças do mal estão se dirigindo para você.

Não, ainda não ficou bom o bastante. Vou tentar mais uma vez.

Eu acordei da forma que você acorda quando você repentinamente sabe que há uma grande e sinistra presença levitando na sua direção, com intenção ameaçadora, na escuridão maligna.

Bom, às vezes eu acordo no meio da noite pensando que há coisas grandes, sinistras e ameaçadoras flutuando no meio da escuridão para me fazer mal. Normalmente eu abro meus olhos, olho ao redor, escuto cuidadosamente, decido que foi um alarme falso, e volto a dormir.

Por isso, o fato de ter acordado nessa noite não foi incomum.

Entretanto, dessa vez, quando eu acordei com a impressão de que havia uma grande e ameaçadora presença aproximando-se silenciosamente na escuridão, eu abri meus olhos, e lá estava ela! UMA GRANDE, SILENCIOSA, AMEAÇADORA PRESENÇA ESTAVA SE APROXIMANDO NA ESCURIDÃO, E ELA PODIA VOAR!!!!

Em algum lugar na sala de controle da minha mente, um anão pequeno e gordo em um uniforme de segurança estava folheando uma Penthouse e fumando um cigarro com os pés em cima da mesa, conferindo os monitores de segurança do meu cérebro com a visão periférica. De repente, ele viu a GRANDE, SINISTRA, SILENCIOSA, AMEAÇADORA PRESENÇA FLUTUANTE se aproximando de mim, e apertou todos os botões de pânico e alarmes que meu corpo tem. Um fluxo de adrenalina acumulado há mais de uma década foi lançado na minha corrente sanguínea de uma só vez. Meu metabolismo foi de “modo relaxado de dormir” para o “modo MEU DEUS! LUTE FOR SUA VIDA OU MORRA!!!!” em um nanosegundo. Meu coração foi de 20 ou poucas batidas por minuto para 240 ou mais.

Eu sempre soube que isso ia acontecer. Eu sempre soube que ceticismo e ciência são apenas vaidades e enfeites psicológicos. Bem no fundo de nossos cérebros crocodilianos, nós todos sabemos que o mundo está cheio de seres malignos, monstros e forças sinistras aliadas contra nós, e que é só uma questão de tempo até que elas se revelem. A evolução sabe disso, também. Ela sabe o que fazer quando o terror silencioso vem a você no meio da escuridão.

Quando 50 milhões de anos de um instinto evolucionário de sobrevivência te acertam em cheio como se fosse um soco na boca do estômago a 300 km/h, isso não é uma sensação agradável.

Sem pestanejar, eu gritei meu grito de guerra (que é indistinguível do som que uma menininha faz quando você joga uma aranha no vestido dela — não que eu saiba como esse som é), e pulei da cama de cueca.

Eu acertei a ameaça flutuante com toda a minha força, e quase caí, ante a total falta de resistência que um balão de hélio oferece quando você desce a pancada nele com toda a força que o terror noturno pode produzir.

A trajetória do balão o levou diretamente para o ventilador no teto, que o lançou no quarto com impressionante velocidade.

Procurando uma arma, eu arranquei o rádio-relógio da tomada e o lancei na Presença Ameaçadora Então Em Alta Velocidade (destruindo o rádio-relógio e fazendo um belo buraco na parede).

De alguma forma, nesse momento, eu percebi de repente que eu estava lutando com o balão, e não com um monstro. Eu até poderia achar isso engraçado, se então eu não sentisse claramente que eu estava a ponto de ter um ataque cardíaco.

Com as pernas trêmulas, eu fui para o banheiro e fiquei tossindo na privada, tremendo incontrolavelmente, sob o choque da reação que eu tive.

Inacreditavelmente, tanto minha esposa quanto minha filha continuaram dormindo durante todo o incidente. Quando eu finalmente decidi que eu não estava tendo um ataque do coração, eu voltei ao quarto e encontrei o balão, que de alguma forma havia sobrevivido ao incidente.

Eu o levei pro closet e o soltei lá dentro, onde ele ficou boiando tranquilamente. Eu fechei a porta, prendendo-o lá dentro, e voltei pra cama. Depois de mais ou menos 500 anos eu consegui dormir.

***

Por volta das 7 da manhã minha esposa acordou. Como ela havia jogado tênis na noite anterior, ela não sabia que havíamos montado o balão - que agora estava flutuando dentro do closet no qual ela estava prestes a entrar.

A interação entre as correntes de ar dentro do closet e a súbita sucção causada pela porta se abrindo foram suficientes para fazer o balão parecer uma Ameaça Sinistra e Maligna voando diretamente para ela.

Desta vez o balão não sobreviveu, e quase tenho o mesmo fim dele, quando tentei explicar para a minha intensamente zangada esposa o que me fez esconder uma presença maligna no closet, para que ela o encontrasse às 7 da manhã.

Eu posso pedir um outro balão pela Internet, mas acho que não vou fazer isso.

Alguns balões devem permanecer mortos.

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