Matrix: da ascensão à queda
Em 1999, um filme se destacou entre os muitos lançados na mesma época. A história não era completamente inovadora, ainda que boa; a estética também não era inédita, tendo sido utilizada em outros lugares antes. Entretanto, o filme combinava essas características de uma forma magistral, a ponto de marcar seu nome na história do cinema contemporâneo. Eu estou falando, é claro, de Matrix.
(”Disclaimer”: se você não viu todos os filmes, não continue lendo, já que este artigo contém “spoilers”. Se mesmo assim quiser ler, não reclame depois sobre eu ter “estragado a surpresa”, ok?)
O primeiro filme da série introduziu perguntas e considerações interessantes. Como diferenciar o que é real e o que não é? Que papel tem a fé na existência humana? Será que há regras “imutáveis” que podem ser “torcidas”? Será que um dia encontraremos nosso fim pelas mãos do que criamos, ou só um novo começo? Qual é o sentido da existência - será prosperar numa ilusão, ou viver numa realidade impossível e esmagadoramente pessimista? Até que ponto Platão estava certo, sobre a existência de um mundo real e de um “mundo das idéias”? E o que dizer quando o mundo real é, de fato, apenas uma idéia? Por baixo do bom filme de ação, há uma série de considerações intrigantes, nascidas de várias correntes da filosofia, criando um ambiente que nos é familiar e ao mesmo tempo indefinível, fixo mas sempre variante. É um filme que se apóia na filosofia vivenciada para construir uma trama interessante e cheia de ação, com momentos memoráveis, e ótimas interpretações - particularmente de Hugo Weaving, no papel do “Agente Smith”.
Eu sou um fã do primeiro filme por tudo isso, e também porque o filme não pressupõe que o espectador é ou um filósofo obscurista ou um completo idiota - mas, antes, trata o espectador como alguém inteligente, que percebe bem o que está “ao redor”, dentro da sua vivência cotidiana.
Bom, isso foi o primeiro filme. Porque os seguintes tratam o espectador exatamente dessas duas formas: ou como um filósofo obscurista, ou como um idiota.
Explico. Matrix: Reloaded continua a história, contando como as ações do “escolhido” influenciaram a Matrix, e como ele continua a ser afetado por ela, inclusive no mundo real. O problema é que nisso a história se perde em sub-histórias desinteressantes e em longas sequências desnecessárias - como a “rave” em Zion, e a “luta do beco”, contra centenas de “agentes Smith”. A coisa se perde de vez quando surge o “arquiteto”, que com um longo discurso desprovido de fundamentação ou conclusão filosófica, encerra o filme com o prenúncio de uma guerra que anula a própria base argumentativa do primeiro…
Não que não haja em Matrix: Reloaded alguns elementos interessantes. O filme gira em torno da capacidade de escolha, e da maneira que uma escolha influencia aquele que a toma e aqueles ao redor. Como no primeiro filme o “Escolhido” parece sê-lo por sua própria escolha, o segundo gira em torno de outras escolhas do “Escolhido”. Em mais de um momento ele é forçado a escolher entre o amor e a sobrevivência de outras pessoas (até com diferentes escolhas), e em mais de um momento as outras personagens são forçadas a acreditarem ou não no seu papel no destino — e até mesmo se decidem crer ou não em um destino determinado. Esse é um aspecto bastante interessante, mas que se perde num filme fragmentado e consideravelmente inferior em direção ao primeiro. No geral, não gostei, mas vi nele a “semente” de um bom filme, e principalmente a possibilidade de uma continuação fenomenal.
Aí, sim, veio minha maior decepção. Matrix: Revolutions tinha todo o potencial de ser, de longe, o melhor filme da série; de conciliar em si os aspectos filosóficos, de mostrar em si o poder e o preço das escolhas feitas nos outros filmes, de terminar com uma solução criativa para o problema aparentemente insolúvel da guerra e interdependência entre homens e máquinas. No entanto, Matrix: Revolutions foi um desfilar de clichês, de sequências típicas de filmes de ação “acéfalos”, do herói que se sacrifica (não sem antes testemunhar o sacrifício do seu amor) até o jovem que grita “Neo, eu acredito” numas das sequências mais idiotas e frustrantes que já vi. E nisso tudo, todo o pano de fundo filosófico se perde numa trama imediatista e superficial, que não só não responde nenhuma das perguntas como ainda deixa perguntas por responder, no melhor modo “filme de terror de sessão da tarde”: o mocinho morreu ou não? Ele voltará? E a Matrix, o que acontece com ela agora?
Uma coisa tenho que admitir. Matrix: Revolutions, ao não lidar com a questão da escolha, me forçou a tomar uma escolha: a de não comprar os DVDs das sequências, ainda que o DVD de Matrix seja um dos favoritos em minha estante. Minha escolha acabou sendo acreditar que esse foi o único filme da série. E, quando penso assim, sou forçado a concordar, ao menos nisso, com a célebre frase do Cypher no primeiro filme: “a ignorância é maravilhosa”.
Dezembro 8th, 2006 at 7:27 pm
Olha só que viadinho!!! Refez o blog mas apagou todos os comentários!!!!
Ah…. menino!!!!!!!!!!!!!!!!
Dezembro 26th, 2006 at 10:48 am
Concordo Roberto, ainda que não tenha visto o Revolutions.