Por um Evangelho mais humano

Uma coisa que tem me incomodado muito, recentemente (e que, pra ser sincero, me incomoda já há muito tempo, embora não com a intensidade que incomoda agora), é a visão “sobrenatural” e “sobre-humana” do Evangelho, que é comum nos nossos dias.

Com isso não estou dizendo que o sobrenatural não faça parte do Evangelho — claro que não. Como poderia afirmar algo assim, se o nosso nascimento para o Evangelho — não da carne, nem do sangue, mas do Espírito — é absolutamente sobrenatural? Não é disso que falo aqui.

Falo é da tendência (nem sempre explícita ou consciente) que vejo, em muitos que “crêem”, de acreditarem que viver o Evangelho é essencialmente deixar de ser humano. De achar que ser humano faz parte do “velho homem”, que aquele que crê não pode ser derrotado, nem se achar em fraqueza, nem ser tentado, nem experimentar a dor, o fracasso, a frustração, o cansaço — em suma, achar que crer é estar livre de ser humano.

A Bíblia, entretanto, conta uma história muito diferente. Todos os “heróis” da Bíblia são intensamente humanos, e quase todos têm defeitos graves e falhas de caráter. Eles sofrem, choram, riem e festejam; enganam, são enganados, pecam, se arrependem, entendem, falham em entender… de Adão até Paulo, passando por tantas outras personagens, o que se vê é um desfilar de figuras humanas, tão humanas que qualquer de nós pode se identificar com elas, com todas as nossas falhas e mazelas, e nisso vermos que o Deus com o qual cada uma delas se relacionou pode também se relacionar conosco, receber-nos tal como somos, e transformar cada um de nós em pessoas melhores — sem que deixemos de ser humanos.

Entretanto, é surpreendente ver como isso parece invisível a tantos que dizem crer em Deus. Há, assim, os que vivem seus dias no “reino do espírito”, se achando melhores que os que são “do mundo”; acham que merecem tudo que lhes é desejável e apreciável, que suas vontades devem ser satisfeitas, que eles podem mover o mundo visível e invisível segundo os seus desejos — fazendo, de si mesmos, não homens, mas deuses e semideuses.

Há também os que vêem o Evangelho como um ideal de perfeição potencialmente e teoricamente atingível; e se esforçam por buscar esse ideal, experimentando um fracasso que não conseguem aceitar; e aí surgem as máscaras (para que pareçam ser perfeitos para os outros “perfeitos”), os conflitos internos, as neuroses e culpas, as esquizofrenias induzidas, as regras auto-impostas; o rigor ascético irrefletido, a valorização de usos e costumes, a negação de pecados, os rituais e as mentiras constantes para afogar seu verdadeiro eu na prisão de si mesmo… até explodir na hipocrisia assassina, ou na libertinagem derivada de pulsões alimentadas e “sublimadas” em rituais vazios e palavras mágicas…

Ambos os grupos, entretanto, negam o cerne do Evangelho, e mesmo se opõem a ele; pois, de homens, querem se tornar deuses; enquanto que o Evangelho nos fala tão somente de um Deus que se fez homem. E esse homem teve fome, sede, chorou, alegrou-se; descansou quando se sentiu cansado, angustiou-se, desabafou, sentiu dor no corpo e na alma; viveu e morreu… e mesmo depois de ressurreto, comeu um peixinho com os discípulos; e levou consigo, pela eternidade, as marcas de um homem crucificado — homem esse que, ainda homem, é mediador entre Deus e os homens, e capaz de socorrer em tudo aos que são tentados, já que foi tentado como eles…

É hora (e já passou) de um Evangelho humano, tanto quanto o Senhor o foi - sem ser “humanista”. Um Evangelho que reconheça tudo que é característico do ser humano, à luz daquele Homem perfeito; que, ao fazer com que nos reconheçamos humanos, nos faz humanos, e capazes de ter compaixão, de pedir perdão, de errar, de tentar acertar; de amar o próximo, humano, como a nós mesmos, humanos que somos; de não nos acharmos melhores do que os outros, ou maiores do que a natureza da qual fazemos parte; de não nos guiarmos pelos nossos desejos e pulsões, mas deles usarmos com moderação e sabedoria; de dependermos em tudo da graça de Deus, de nos alegrarmos com as coisas pequenas e grandes, de atentarmos para os dias maus (que serão muitos), de vivenciarmos os “acasos” a que todos nós, seres humanos, estamos sujeitos - sabendo, porém, vislumbrar a graça e a misericórdia de Deus em cada um deles, sabedores de que Ele nos conhece e nos entende porque se fez um de nós, e porque nos fez a todos; e não nos fez anjos, ou deuses, mas simplesmente seres humanos. Um Evangelho que não cria uma geração de super-homens, mas só gente, e gente boa de Deus.

É hora de redescobrir esse Evangelho, porque é esse o Evangelho desde o princípio, pelo qual tantos homens limitados e falhos foram salvos - e pelo qual nós podemos ser salvos, também, de todas as nossas pretensões sobre-humanas e sobrenaturais, para experimentar, na nossa humanidade, a transcendência de Deus; e na nossa fraqueza e efemeridade, vermos aperfeiçoado o poder eterno de Deus; e, reconhecendo-nos vasos de barro, valorizarmos, barro que somos, o brilho do verdadeiro e precioso tesouro em nós.

Um comentário para “Por um Evangelho mais humano”

  1. jUNIM
    December 1st, 2007 06:57
    1

    Amém mesmo! Deus é Bom! Acho que vou ler mais umas 30 vezes…Paz á todos!