Clareza

Quando eu tinha 17 anos, ocorreu algo extraordinário comigo. Eu havia me convertido anos antes, sido batizado, etc. Mas o Evangelho sempre me parecia algo “externo”, inatingível; e as “coisas espirituais” encontravam em mim um conhecimento objetivo — até bem estruturado — mas com pouco reflexo no meu ser, na pessoa que eu era. Depois de alguns anos afastado da comunhão da igreja, eu havia voltado para a minha cidade natal. Era um momento interessante pra mim, pois era novo, e, ao mesmo tempo, bastante familiar.

Um dia eu estava sozinho em casa, de férias. A janela do meu quarto, num modesto mas bonito apartamento no oitavo andar de um prédio bem alto, permitia ver a quase totalidade da cidade, a serra ao fundo, e o céu.

Ao olhar pro céu, fui invadido por uma sensação nova, mas estranhamente familiar. Era uma sensação de amplitude tão absurda, que fazia com que eu me sentisse como nada. Fui tomado por uma sensação de clareza, como se tudo subitamente fizesse sentido.

“Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?” (Salmos 8:3-4)

Ajoelhei-me em minha cama e chorei, enquanto contemplava o céu, e, mais ainda, Aquele que o criou. Não O via, mas na clareza que experimentei, eu O percebia claramente, ao mesmo tempo oculto e revelado no céu que criara.

Naquele dia li a maior parte do Novo Testamento (que já havia lido antes). Desta vez, entretanto, a leitura foi diferente. Não era mais algo objetivo, “fora de mim”, por assim dizer. Era algo que mexia com algo lá dentro, era algo novo, mas ao mesmo tempo intensamente familiar. Não que eu entendesse tudo do que lia (apesar de entender mais que antes), mas de alguma forma aquilo era parte de mim.

Já se vão muitos anos desde que isso aconteceu, mas percebo ainda em mim essa mesma sensação. Ela parece variar de intensidade, mas me acompanhou por todas as fases da minha vida, mesmo quando quis fazê-la calar. E momentos de clareza assim foram cruciais em muitos dos momentos mais críticos e decisivos da minha vida — incluindo o dia em que, num momento de clareza, reconheci, em uma moça simpática, a mulher linda que me completa até hoje.

Quem me conhece sabe que sou bastante racional, bastante “centrado”, e, até certo ponto, um tanto “teológico”. Sou também comumente cético a respeito de muitas coisas, particularmente aquelas atribuídas a Deus de forma arbitrária. Também penso que sentimentos e sensações são algo perigosíssimo, se não acompanhados pela mente racional e pela força de vontade, e submetidos à Verdade revelada nas Escrituras. Assim mesmo, não posso explicar o que sinto, nem negá-lo; apenas afirmar que tal “sensação” me guiou no aprendizado, na experiência e na vivência do Evangelho, segundo as Escrituras; e que tal sensação é parte do que eu sou, de quem eu sou. Amparado por essa clareza (presente até nas minhas dúvidas sinceras, até nas minhas incertezas), eu tenho descoberto verdades que nem sonhava conhecer, verdades para mim tão obviamente verdadeiras que são inegáveis, mesmo quando à primeira vista se opõem à lógica e à razão — para em seguida se harmonizarem de forma inacreditavelmente inesperada, e ainda assim, muito familiar.

Nem sei porque escrevo isto. Eu ia falar sobre ortodoxos, liberais, e as “diferenças teológicas” que testemunho há muito tempo — e as constantes contendas que delas surgem. Talvez seja porque é preciso antes expor de onde eu venho, e quem eu sou, por assim dizer, para só então poder falar do que vejo.

Fico por aqui, por ora. Minha oração, no entanto, é para que você, leitor, seja tomado da mesma clareza lúcida que experimentei e experimento até hoje — e que não é um transe místico, ou uma simples elaboração lógica, mas algo novo, e ao mesmo tempo, intensamente familiar — e que através dela você encontre a Palavra por trás da palavra, a pessoa de Cristo oculta e revelada em cada linha da Escritura, no azul do céu, e em cada átomo do Universo…

“…porque nEle foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele é antes de todas as coisas, e nEle subsistem todas as coisas; também Ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência, porque aprouve a Deus que nEle habitasse toda a plenitude…” (Colossenses 1:16-19)

4 comentários para “Clareza”

  1. Ana Carolina
    September 17th, 2007 15:02
    1

    Parabéns! espero que não tenha abandonado o blog, e principalmente perdido a inspiração para escrever coisas tão necessária nesse mundo tão carente.

  2. Roberto
    September 17th, 2007 15:08
    2

    Oi Ana,

    Não abandonei não… é que tenho dedicado meu tempo a outros “projetos”, mas de vez em quando atualizo aqui… pretendo inclusive fazê-lo esta semana.

    Obrigado pelas palavras. Um abraço,

    Roberto

  3. Hermes
    September 17th, 2007 16:35
    3

    Ei Roberto,

    Quando ocorre isso com a gente, é o próprio Espírito Santo, nos revelando, através da palavra escrita, aquilo que Ele conhece do Pai intimamente.
    É sair do saber para o viver!
    É muito bom mudarmos a nossa vida para esse tipo de experiência.
    Deus te abençoe muito nessa caminhada!

    abraços,

    Hermes

  4. Roberto
    September 17th, 2007 16:55
    4

    Oi Hermes,

    Amém! Obrigado pelas palavras… que Deus o abençoe também!

    Abraço,

    Roberto