Amigos de Cristo

“Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.” (João 15:14)

À primeira vista, essa frase pode soar muito estranha. E isso acontece porque há um conflito aparente entre os conceitos apresentados. Entretanto, há algo escondido, não só nessa frase, mas no contexto em que ela ocorre. E para entender esse sentido pleno, temos que primeiro pensar sobre seus elementos.

O que, afinal, é amizade? E o que faz com que duas pessoas se tornem amigas? Amizade é um amor puro, que surge da afinidade entre duas pessoas; afinidade essa que pode estar no seu passado (ou seja, numa história de vida parecida), no presente (a mesma maneira de pensar, ou forma de ver) ou no futuro (objetivos parecidos ou complementares). De qualquer forma, a amizade nasce quando reconhecemos no outro parte de nós mesmos, e quando o outro reconhece em nós parte de si.

A Bíblia fala de várias amizades; amizades como a de Davi e Jônatas, que, em muitos aspectos, é bastante parecida com a amizade entre os protagonistas do “Senhor dos Anéis”, os hobbits Sam e Frodo — o tipo de amizade que arrisca a própria vida pelo bem-estar do outro. E é pena ver que tal amizade parece ser um conceito esquecido, nesses dias em que não se vê no amor algo indistinto do sexual — mas isso já é tema pra uma outra reflexão, em outra oportunidade.

Há uma amizade citada na Bíblia, no entanto, que é muito particular. Um caso — e um só, em toda a Bíblia — em que Deus chama um ser humano de amigo. E ouvimos isso da boca do próprio Deus:

“Mas tu, ó Israel, servo meu, tu Jacó, a quem escolhi, descendência de Abraão, meu amigo…” (Isaías 41:8)

“Abraão, meu amigo”. Essa expressão produz em mim, sempre, uma impressão fortíssima. Deus chamando um homem de amigo! E por que, afinal, Deus o chama de amigo?

Achamos a primeira pista para responder essa pergunta na epístola de Tiago:

“Porventura não foi pelas obras que nosso pai Abraão foi justificado quando ofereceu sobre o altar seu filho Isaque? Vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada; e se cumpriu a escritura que diz: E creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça, e foi chamado amigo de Deus.” (Tiago 2:21-23)

Podemos, à primeira vista, dizer que foi a obediência que fez Abraão se tornar amigo de Deus — até porque essa hipótese parece concordar com o que o Senhor Jesus disse no versículo inicial desta reflexão. Mas será que é isso mesmo? E cabe perguntar, pois há muitos outros homens e mulheres que obedeceram a Deus — mas nenhum foi chamado de amigo de Deus, senão Abraão. Portanto, precisamos buscar se há algo mais em Abraão que possa tê-lo feito amigo de Deus — e, se há algum lugar em que buscar isso, é no evento que Tiago cita: “quando Abraão ofereceu sobre o altar seu filho Isaque”.

Esse evento está descrito em Gênesis 22:1-18. Peço que, se puder, leia o texto com cuidado, pois há muito que se aprender nele (e não o reproduzo aqui por causa de espaço). Resumindo o evento em questão, Deus manda Abraão sacrificar seu filho Isaque num monte que Ele lhe mostraria. Abraão anda até lá com seu filho, e quanto se propõe a sacrificá-lo, Deus o impede, providenciando um carneiro para ser sacrificado em seu lugar; e diz a Abraão que, por Abraão não ter negado seu único filho, que ele seria grandemente abençoado.

É aí que vemos que, na verdade, a amizade entre Deus e Abraão não é diferente da que conhecemos, pois surge também da afinidade entre eles. Como Abraão, Deus se dispôs a sacrificar Seu próprio filho em favor de outros; como Abraão, Seu filho era o que Deus mais amava. Entretanto, se Isaque foi poupado, o filho de Deus não o foi, pois não havia um cordeiro para ser sacrificado em seu lugar, já que ele mesmo era “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29).

Assim, Deus e Abraão compartilhavam uma mesma história, e isso fazia de Abraão um amigo de Deus. Como aplicar esse conceito ao texto inicial dessa reflexão? Basta vermos o contexto em que ele se encontra:

“O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.” (João 15:12-14)

Ora, o mandamento de Cristo é seguir o amor que ele teve; amor que o levou a dar a sua própria vida. Ora, a partir do momento em que amamos assim, em que nos dispomos a amar em prejuízo até da própria vida, compartilhamos com Cristo sua motivação e sua história; ao obedecermos ao Seu mandamento, passamos a ter algo em comum com ele; e assim nos tornamos seus amigos.

Logo, não é a obediência em si que nos faz amigos de Cristo, mas o que ela significa; não é o mandamento em si que ganha a Sua amizade, mas compartilhar Suas intenções e Seu amor; somos amigos de Cristo quando vivemos o que Ele viveu, quando andamos como Ele andou, quando Ele é, através de nós, tudo o que é e foi: amor, pureza, luz, graça e verdade.

“O que ama a pureza do coração, e que tem graça nos seus lábios, terá por seu amigo o rei.” (Provérbios 22:11)

Um comentário para “Amigos de Cristo”

  1. MARCELO MARIANO TRAINE
    June 20th, 2007 11:03
    1

    Bom dia meu irmão. Conheci o blog hoje mesmo e
    gostei do texto.
    Espero poder compartilhar contigo algumas dúvidas, angústias e porque não alegrias também.
    Um abraço.