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A razão da fé

Thursday, 12 de October de 2006

“…antes santificai em vossos corações a Cristo como Senhor; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós; tendo uma boa consciência, para que, naquilo em que falam mal de vós, fiquem confundidos os que vituperam o vosso bom procedimento em Cristo.” (I Pedro 3:15-16)

Tenho para mim que pensar e repensar sempre a fé e as convicções que temos é um exercício do verdadeiro Cristianismo; e vejo também nisso o sentido de “renovar a mente”, a que Paulo nos exorta (Rom 12:2). Entretanto, até que ponto a razão faz parte do exercício da fé genuína? E até que ponto o que pensamos e repensamos se relaciona com o que cremos? Sem entender isso bem, é impossível entender o pedido do Apóstolo Pedro no trecho do início desta reflexão. Como, então, estarmos prontos para responder, quando alguém pedir a razão da esperança que há em nós?

Assim, podemos dividir o problema em duas questões basais. Em primeiro lugar, o que é próprio da fé pode ser tocado pelo entendimento? E, em segundo lugar, qual a relação entre o entendimento e a fé?

A primeira pergunta parece ter uma resposta óbvia, ainda que à primeira vista estranha:

“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, enquanto ele por ninguém é discernido. Pois, quem jamais conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.” (I Coríntios 2:14-16)

Ora, então o entendimento humano não pode, de fato, discernir o que é genuinamente espiritual. Ainda assim, há razão na fé cristã, ou eu não teria porque escrever o que escrevo, nem debater como faço; nem haveria razão alguma para que Paulo escrevesse, nem para a existência de qualquer um dos Evangelhos. O que nos leva necessariamente à segunda pergunta: qual a relação entre o entendimento e a fé?

Para responder a pergunta, vou usar como modelo do entendimento humano um dos seus mais ricos exemplos: a matemática. A matemática é uma área de conhecimento muitíssimo ampla, mas baseada fundamentalmente em preceitos muito simples, verdades básicas, impossíveis de provar, mas consideradas verdadeiras e não falseáveis, chamadas de axiomas. A partir dos axiomas deduzem-se outras propriedades, progressivamente mais complexas, até os níveis mais elevados da matemática. Entretanto, os axiomas estão além do entendimento proporcionado pela matemática, já que não podem ser provados; não obstante, são a base de tudo aquilo que essa ciência abrange.

Acontece o mesmo com a fé. As verdades fundamentais da fé cristã não podem ser provadas, nem tocadas pelo entendimento humano; mas, a partir delas, podemos construir e reconstruir nossa maneira de pensar, construir todo um entendimento sobre essas verdades fundamentais.

Tais verdades fundamentais jamais são conhecidas pelo entendimento humano, mas tão somente pela ação soberana do próprio Deus:

“Respondeu-lhe Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 16:16-17)

“Naquele tempo falou Jesus, dizendo: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece plenamente o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece plenamente o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.” (Mateus 11:25-27)

“Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras…” (Lucas 22:45)

“Por esta razão, nós também, desde o dia em que ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que sejais cheios do pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual; para que possais andar de maneira digna do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus…” (Colossenses 1:9-10)

Aí surge uma questão interessante: como explicar a razão de uma fé cuja base não pode ser compreendida pelo entendimento?

Pedro mesmo responde: “o vosso bom procedimento em Cristo”. Os axiomas da Matemática, mesmo desconhecidos, podem ser encontrados em tudo o que neles se baseia; e os axiomas da fé, ainda que intocáveis pelo entendimento humano, podem ser percebidos naqueles que os conhecem, em tudo que são e fazem. Nós, que cremos, somos o “livro” em que tal entendimento espiritual é escrito, a maneira através da qual ele se torna acessível a outros; e isso, somado à ação soberana de Deus, é tão somente o que pode tocar o homem além do entendimento, mostrar aquilo que seria incapaz de ver de outra forma; é só vendo Cristo em nós que alguém encontrará em nós a razão da nossa esperança.

Sim, pois Cristo é, em suma, essa verdade oculta, intocada pelo entendimento humano; uma contradição em tudo que foi e é, e ainda assim, familiar e compreensível a todos que O conhecem. Não é por acaso que a palavra traduzida por “razão” no texto inicial desta reflexão é “Logos”, o mesmo de que João dá testemunho ao dizer “e o Logos se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai” (João 1:14). Cristo em nós é a nossa esperança (Col 1:27), só Cristo é a revelação dada a Pedro, da qual Cristo testificou como estando além do entendimento humano; sim, Cristo é a pedra fundamental, em quem estão todos os tesouros da sabedoria e do entendimento.

Só podemos responder àqueles que pedirem a razão da esperança que há em nós de uma forma: mostrando a Cristo, no nosso procedimento e palavras, na base de tudo que somos e fazemos. Só Cristo pode, de fato, levar alguém a essa verdade inalcançável pelo esforço humano, nessa certeza aparentemente ilógica, na fé que se baseia no que é invisível aos nossos olhos, mas que é tão supremo e verdadeiro que transcende não só nosso entendimento, mas a própria existência, para ser o Verbo que estava no princípio com Deus, e que era e é Deus; o Logos, a Palavra encarnada, o filho de Deus, o único Homem justo; Cristo, nosso axioma, sobre o qual construímos tudo o que somos, no qual tudo subsiste, princípio e fim de tudo, por quem e para quem foram feitas todas as coisas; Cristo, o filho do Deus vivo, que carne e sangue não podem reconhecer como tal.

Assim, estejamos prontos a responder a todos que nos perguntarem nossa fé, não com argumentos filosóficos, científicos ou seja o que for, mas com o testemunho inequívoco e inegável da vida de Cristo em nós.

“Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens, sendo manifestos como carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne do coração. E é por Cristo que temos tal confiança em Deus; não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus…” (II Coríntios 3:2-5)