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Sabedorias

Friday, 11 de August de 2006

“Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom procedimento as suas obras em mansidão de sabedoria. Mas, se tendes amargo ciúme e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. Porque onde há ciúme e sentimento faccioso, aí há confusão e toda obra má. Mas a sabedoria que vem do alto é, primeiramente, pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.” (Tiago 3:13-18)

Hoje quero continuar no assunto que tratei na semana passada, sobre o verdadeiro “saber” cristão. Porque o conhecimento subjetivo, experimentado, que passa a fazer parte do que somos, é o que se chama normalmente de “sabedoria”; e este texto de Tiago começa se dirigindo aos “sábios e entendidos”.

Há várias coisas interessantes nesse texto. A primeira é que Tiago não condiciona em nenhum momento a sabedoria ao quanto se conhece, ao quanto se entende; antes, ele se refere ao procedimento que nasce dessa sabedoria, o “fruto” da sabedoria, por assim dizer. E isso só confirma o que vimos na semana passada; que o saber que convém, do ponto de vista cristão, é aquele transformado em prática e unido ao amor cristão — esse só capaz de edificar, ao invés de inchar.

No entanto, há algo mais que esse texto mostra, porque nele Tiago especifica o contraste entre a sabedoria verdadeira e a falsa, entre a sabedoria segundo Deus, e aquela que não o é; e isso nos revela várias coisas, tanto sobre a verdadeira sabedoria, quanto sobre a falsa. E comecemos a examinar o que ele diz por esta última.

“Terrena, animal e diabólica”. É assim que Tiago se refere à sabedoria que não vem de Deus; e nessa descrição, ele inclui o conhecimento que tem aparência de sabedoria, mas que, não praticado, apenas incha, ao invés de efetivamente dar fruto. Mais que isso, nessa expressão Tiago cita três “esferas”, três aspectos da mesma sabedoria - sabedoria essa que se opõe a Deus, porque, sendo terrena, é do mundo; sendo animal, habita na carne; e sendo diabólica, é inspirada pelo Diabo; assim essa é a sabedoria do mundo, da carne e do diabo — a “tríade maligna” que opõe-se à Trindade.

Qual é a característica da sabedoria terrena, ou segundo o mundo? “Mundo”, nesse contexto bíblico, se aplica ao “sistema” decaído e corrompido pelo pecado, que afirma e confirma o processo do pecado. Sim, o caminho do mundo é o do poder; o poder que controla, que exalta e esmaga, que corrompe e devora. E diz-se, nesse mesmo mundo, que “conhecimento é poder”. E há verdade nisso, pois, de fato, a sabedoria segundo o mundo tem um objetivo — conseguir o poder, particularmente pelo conhecimento.

E como é a sabedoria animal? Ora, no mundo animal só existe uma lei, e, por isso só, uma só sabedoria: a saber, a “lei do mais forte”. É pela força, quer física, quer mental, que o animal se afirma; é no exercício da força, na imposição de uma vida sobre outra, em detrimento do mais fraco, que habita a sabedoria animal.

O que dizer da sabedoria diabólica? Ora, em que ela consiste, senão no querer ser igual a Deus, ou maior que Ele? Em que ela consiste, senão em se ser “deus” de todos, e particularmente de si mesmo? Assim, a sabedoria diabólica arvora-se na ambição, na ganância, no comércio, no orgulho.

O que essas três “sabedorias” têm em comum? Ora, todas elas têm um só objetivo: elevar, a qualquer custo, aquele que a possui; seja em poder ou pelo poder, seja em força ou por força, seja em soberba ou por cobiça; a sabedoria terrena, animal e diabólica tenta elevar seu possuidor acima dos demais, exaltá-lo, torná-lo em um glorioso vencedor, em um ditoso sábio, em um homem poderoso, em um grande governante… sem jamais consegui-lo, pois o poder do mundo é passageiro e ilusório, a força se desvanece, e a soberba, por maior que seja, jamais fará ninguém ocupar o trono de Deus. A “sabedoria” falsa, portanto, tem uma direção: a de levar o homem de baixo para cima — mesmo que não consiga fazê-lo.

A sabedoria segundo Deus, no entanto, é muito diferente. Primeiro, porque “vem do alto”. Ver essa expressão no grego é ainda mais interessante, porque ela significa literalmente “que desce, que se dirige de cima para baixo”. Ora, essa simples expressão já nos mostra como a sabedoria de Deus se opõe à sabedoria segundo os homens — pois têm sentidos diferentes: a falsa sabedoria tenta elevar o homem, até fazê-lo deus de si mesmo; enquanto que a sabedoria segundo Deus O faz descer para os homens.

“Tende em vós aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus, o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.” (Filipenses 2:5-8)

“…vemos, porém, aquele que foi feito um pouco menor que os anjos, Jesus, coroado de glória e honra, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos.” (Hebreus 2:9)

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai.” (João 1:14)

Ora, é em Cristo então que habita a verdadeira sabedoria, porque Ele é o que desceu do céu; e, ao descer, ele não ensinou uma sabedoria que se arvora no poder do mundo, mas na dependência do poder de Deus; tampouco ensinou o homem a se tornar mais forte, antes a encontrar forças só na própria fraqueza; e não ensinou o homem a se fazer deus, mas mostrou na prática um Deus que se fez homem.

Sim, só em Cristo se encontra a verdadeira sabedoria; e é só na vida dEle em nós que acharemos a sabedoria do alto, com todas as qualidades que Tiago descreve, que são tão somente a descrição do que Cristo foi e é. E ao conhecermos a sabedoria do alto, e ao colocarmos em prática essa mesma Vida, teremos o fruto da justiça em paz; pois Sabedoria, Verdade, Vida, Paz e Justiça se encontram em Cristo.

“Porque a palavra da cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei o entendimento dos entendidos. Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o questionador deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto como na sabedoria de Deus o mundo pela sua sabedoria não conheceu a Deus, aprouve a Deus salvar pela loucura da pregação os que crêem. Pois, enquanto os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos, mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus.” (I Coríntios 1:18-24)