Saber e ser

“…A ciência incha, mas o amor edifica. Se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber. Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele.” (I Coríntios 8:1b-3)

Essa semana estive pensando muito sobre o perigo do “saber”, ou antes, do “julgar saber”. Isso porque sempre encontro pessoas que se acham sabedoras de tudo, “donas da verdade”, instruidoras dos néscios, mestres de crianças, tendo na sua própria lei a forma da ciência e da verdade… e, na verdade, sabendo pouco ou nada do que realmente importa. E mais ainda, penso repetidamente nesse perigo porque me vejo extremamente vulnerável a ele, pois tendo a pensar que muito sei, só para perceber que não é exatamente assim; pois, como diz a Palavra, se alguém julga saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber.

É claro que crer é também pensar, como bem disse Stott. Mas crer não é só pensar, nem tampouco só saber; pois a fé, por definição, afirma-se em fatos nem sempre vistos ou compreendidos, nem sempre tocados pelo entendimento humano; antes, como diz Paulo, a mente natural não aceita o que é espiritual, posto que o espiritual só é discernido pelo espírito, ou antes até, somente pelo próprio Espírito de Deus. Ainda assim, crescemos também na fé pelo saber, pela edificação do nosso entendimento; como, pois, conjugar o saber que cresce com a fé simples, sem se deixar inchar, mantendo o amor que realmente edifica?

Antes de procurar na Bíblia a resposta, quero citar um exemplo que certamente nos ajudará a entender. Conheci há algum tempo um homem que se especializou em uma forma de pintura japonesa chamada “sumiê”. Esse homem estudou anos e anos toda sorte de técnicas, que praticava quase à exaustão, com pouco espaço para a própria criatividade, ou até para seu próprio estilo. Depois de anos de treinamento intensivo, o seu professor finalmente o considerou formado. Então, o professor lhe disse “esqueça tudo que aprendeu; a partir de agora, simplesmente pinte”. E esse pintor entendeu que toda a técnica que aprendera não lhe era realmente útil como saber ou ciência; mas se tornou útil somente quando se tornou parte do que ele era. Ao pintar sem pensar, ele agora aplicava instintivamente todas as técnicas que aprendera, mas com liberdade e simplicidade; sem preocupar-se em saber, mas simplesmente sendo o que era; e nisso se tornou um grande pintor.

Com o saber cristão acontece algo semelhante, pois não importa o quanto sabemos, mas sim o que somos; não a medida do nossa ciência, mas sim o quanto ela é parte da nossa vida cotidiana. Conhecer a Deus, como Deus quer se fazer conhecer, tem muito mais a ver com o que somos que com o que sabemos. A ciência que se concentra no conhecimento apenas incha um entendimento que permanece infrutífero; mas a ciência vivenciada e “subjetivada”, entranhada na vida daquele que a aprende, pode unir-se ao amor prático e cotidiano para gerar edificação — para nós e para outros.

Assim, quanto mais sabemos, e quanto mais esse saber passa a fazer parte do que somos, tanto pela prática como pela vivência, menos sabemos; e percebemos que o Evangelho não consiste realmente em grande saber, mas sim em um Grande Ser; a saber, a pessoa e obra de Cristo. Como bem diz Paulo:

“E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. A minha linguagem e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Espírito de poder; para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.” (I Coríntios 2:1-5)

Mesmo que haja coisas que só viremos a “saber” quando estivermos maduros para isso, tais coisas só vão falar, de formas diferentes, da essência pura e simples do evangelho: a pessoa e obra de Jesus Cristo, a suficiência do seu sacrifício, e nossa dependência dele. Pois nada se nos propõe saber, senão Cristo, e este crucificado; e nessa Pessoa, simplesmente, todos os tesouros da sabedoria e da ciência:

“…para que os seus corações sejam animados, estando unidos em amor, e enriquecidos da plenitude do entendimento para o pleno conhecimento do mistério de Deus — Cristo, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.” (Colossenses 2:2-3)

Assim, preocupemo-nos não no saber, ou no quanto sabemos; antes, de fé em fé, e de obediência em obediência, aprendamos sempre, progredindo no saber e no conhecer a Deus segundo a Sua palavra; e assim transformemos o que aprendemos no mais primitivo dos saberes — a saber, aquele que, absorvido por nós, deixa de ser saber para fazer parte de quem e do que somos; e assim, não saberemos, mas seremos (pois ser é, de fato, o “como convém saber”) à semelhança do Evangelho, à imagem de Cristo, para glória de Deus Pai.

“Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Pois, quem jamais conheceu a mente do Senhor? Ou quem se fez seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.” (Romanos 11:33-36)

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