As duas vindas
Sexta-feira, 28 de Julho de 2006“Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor; sabei, porém, isto: se o dono da casa soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa. Por isso ficai também vós apercebidos; porque numa hora em que não penseis, virá o Filho do homem. Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o senhor pôs sobre os seus serviçais, para a tempo dar-lhes o sustento? Bem-aventurado aquele servo a quem o seu senhor, quando vier, achar assim fazendo. Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens. Mas se aquele outro, o mau servo, disser no seu coração: Meu senhor tarda em vir, e começar a espancar os seus conservos, e a comer e beber com os ébrios, virá o senhor daquele servo, num dia em que não o espera, e numa hora de que não sabe, e cortá-lo-á pelo meio, e lhe dará a sua parte com os hipócritas; ali haverá choro e ranger de dentes.” (Mateus 24:42-51)
A chave do Evangelho está na revelação de Cristo, da Sua pessoa e obra, como Filho do Homem e Filho de Deus. No entanto, aprouve a Deus dividir a obra de Cristo em dois momentos específicos, em duas partes distintas, mas relacionadas — a saber, as duas vindas de Cristo.
Há similaridades e diferenças entre as duas vindas do Senhor. É fácil intuir da Palavra as diferenças, pois na primeira vinda, o Senhor veio em carne, e na segunda, virá em glória; na primeira foi o servo, na segunda o Senhor dos senhores; na primeira veio para salvar, na segunda virá para exercer juízo; na primeira estabeleceu um reino invisível, na segunda estabelecerá um reino visível; e, finalmente, na sua primeira vinda foi rejeitado pelos seus, mas na segunda, será recebido pelos seus, a quem vem buscar.
No entanto, há entre as duas vindas do Senhor muitas semelhanças. A semelhança mais óbvia é que ambas giram em torno da mesma pessoa, que é o Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus. Nas duas ele faz a vontade de Seu Pai, nas duas ele chama homens, nas duas vemos sua vitória sobre a morte e o inferno; mas, sobretudo, como na primeira vinda ele chegou “de repente”, assim será também na segunda.
Basta ler os evangelhos para ver como o Senhor não só não foi recebido pelos seus, mas como ele mal era esperado. A Bíblia fala apenas de uns poucos que esperavam a vinda do Messias - na verdade, a Bíblia cita pelo nome explicitamente apenas a Simeão, apesar de citar outros não nominalmente um pouco abaixo (Lucas 5:25,38). Como diz João:
“Estava ele no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.” (João 1:10-11)
Como na sua primeira vinda, o Senhor mal será esperado na segunda. Pois diz a palavra:
“Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Contudo quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” (Lucas 18:8)
“Igualmente hão de surgir muitos falsos profetas, e enganarão a muitos; e, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará. Mas quem perseverar até o fim, esse será salvo.” (Mateus 24:11-13)
Como no texto inicial, ele virá quando não for esperado. E há algo interessantíssimo nesse fato. Há um ditado que diz “viva cada dia como se fosse o último”. E algo similar deveria ocorrer a nós quando pensamos na iminência da segunda vinda de Cristo, nós, que cremos na primeira: deveríamos viver como se hoje fosse o dia da volta do Senhor.
Pensando assim, o que faria o dono da casa prudente? Vigiaria todos os dias a sua casa, pois não sabe em que tempo o ladrão vem. E o servo agiria com inteireza todo o tempo, se não sabe quando o seu senhor virá prestar contas com ele. E nós, que cremos na segunda vinda de Cristo, como deveríamos viver?
Pra mim, o aspecto mais importante da resposta óbvia à pergunta acima está justamente naquilo em que ela difere das metáforas citadas: pois se o dono da casa vigia por temer a perda de seus bens ou de sua vida, e se o servo vigia por medo do juízo do seu senhor, nós deveríamos viver por amor a Cristo, para sermos achados nEle, não temendo ser achados fora dEle; deveríamos viver cada dia na expectativa da sua volta, mas não na “expectação terrível de juízo”; antes, amando a vinda de Cristo, por amarmos aquele que vem; não temendo o juízo, mas aguardando ansiosamente a nossa redenção plena; não vivendo pelo medo, mas aperfeiçoando-nos cada dia no amor que lança fora o medo (I João 4:18).
É fato que, quando o Senhor voltar, poucos estarão de fato esperando por ele. Mas oro para que eu e você sejamos alguns desses poucos, se o Senhor voltar ainda no tempo da nossa vida; e que, independente de testemunharmos sua volta ainda em vida, vivamos todos os dias para aquele que por nós morreu e ressuscitou, quando veio pela primeira vez, aguardando com paciência a segunda vez em que virá — e entre uma e outra vez, vivendo na sua presença em todo o tempo.
“Ora, uma vez que todas estas coisas hão de ser assim dissolvidas, que pessoas não deveis ser em santidade e piedade, aguardando, e desejando ardentemente a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se dissolverão, e os elementos, ardendo, se fundirão? Nós, porém, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça. Pelo que, amados, como estais aguardando estas coisas, procurai diligentemente que por ele sejais achados imaculados e irrepreensíveis em paz; e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada…” (II Pedro 3:11-15)
“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.” (II Timóteo 4:7-8)
“Aquele que testifica estas coisas diz: Certamente cedo venho. Amém; vem, Senhor Jesus.” (Apocalipse 22:20)