Pedra e carne
Nas últimas semanas eu estive pensando muito sobre lei e graça, particularmente no texto de João 9. E é interessante perceber como os discípulos, no texto de João 9, exibem inicialmente um pensamento similar ao dos fariseus; e isso me fez perceber como nós todos tendemos a ser fariseus em tantas coisas, como prezamos a aparência ao contrário da essência - e de como o farisaísmo tem sobrevivido, ao longo da história da igreja.
Enquanto pensava nisso, acabei sendo atraído ao texto abaixo:
“Outra vez entrou numa sinagoga, e estava ali um homem que tinha uma das mãos atrofiada. E observavam-no para ver se no sábado curaria o homem, a fim de o acusarem. E disse Jesus ao homem que tinha a mão atrofiada: Levanta-te e vem para o meio. Então lhes perguntou: É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal? Salvar a vida ou matar? Eles, porém, se calaram. E olhando em redor para eles com indignação, condoendo-se da dureza dos seus corações, disse ao homem: Estende a tua mão. Ele estendeu, e lhe foi restabelecida. E os fariseus, saindo dali, entraram logo em conselho com os herodianos contra ele, para o matarem.” (Marcos 3:1-6)
O termo grego traduzido por “indignação” significa aquela reação emocional que brota do íntimo ao ver algo que nos ofende profundamente. E o verbo traduzido por “condoer-se” é quase equivalente a “sentir-se em luto”. Sim, algo fez com o que o Senhor tivesse uma reação emocional fortíssima, um misto de raiva e tristeza. E o que foi esse algo? Simplesmente a dureza do coração daqueles que ele interrogou.
O termo grego traduzido por “dureza” quer dizer um pouco mais do que aparenta; porque o termo usado é “porosis”, que vem de “poros”, um tipo de pedra. Esse termo era usado não só para falar de dureza, mas também de um tipo particular de cegueira — a saber, aquela que se afirma mesmo quando os olhos vêem; a cegueira que é a cegueira da razão, do entendimento; a estupidez, a estultícia, a tolice de corações que se sentem donos da verdade; a cegueira daquele que não quer ver nem ouvir.
Sim, em João 9 é fácil ver-se nos fariseus o mesmo coração duro, e a mesma cegueira. E em João 9 essa cegueira contrasta com um homem, cego de nascença, que volta a ver; e que afinal vê muito mais do que os seus olhos lhe mostravam. Sim, ali temos um contraste estranho, entre um homem cego que vê, sem nunca ter visto antes, e que vendo passa a andar pelo que não vê, ao crer no Filho do Homem; e homens não cegos que não vêem, ainda que pensem ver, entenebrecidos no coração pelo seu “entendimento”.
O que vejo nesse texto é como a nossa verdade particular ofende aquele que é a Verdade. Sim, o que ofendeu a Cristo foi mais do que a falta de misericórdia daqueles homens; o que o ofendeu foi que tomaram para si mesmos a verdade, negando a Verdade que estava diante deles — a mesma Verdade oculta na lei, que eram incapazes de interpretar corretamente. Curiosamente, uma característica fundamental do pecado original está justamente nessa verdade particular e dissociada da Verdade:
“Mas chamou o Senhor Deus ao homem, e perguntou-lhe: Onde estás? Respondeu-lhe o homem: Ouvi a tua voz no jardim e tive medo, porque estava nu; e escondi-me. Deus perguntou-lhe mais: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses?” (Gênesis 3:9-11)
Ora, o homem estava nu antes (Gen 2:25). A diferença entre os dois momentos, portanto, não era o seu estado, mas o que reconhecia ser seu estado; estar nu não era pecado, mas julgar-se nu passou a ser vergonha. A vergonha da nudez ali não vinha de Deus, senão do próprio Adão; e isso é ainda mais interessante quando consideramos que neste trecho Adão já havia se cingido de cintas feitas com folhas (Gen 3:7), ou seja: ele julgou-se nu, mesmo que aparentemente não o estivesse.
Nisso percebemos que, de fato, a serpente mentiu. Mentiu quando disse o seguinte:
“Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.” (Gênesis 3:5)
Sim, a serpente mentiu; porque, de fato, ao comer do fruto do conhecimento do bem e do mal, os olhos do homem não se abriram, ao contrário; o homem se tornou cego. E cego, não era mais capaz de ver bem ou mal, senão o que classificava como bem ou mal pra si mesmo; o que o pecado fez foi cegar-nos, encerrar-nos em trevas, transformar nosso coração em pedra porosa, em um aglomerado do pó que somos.
Sim, Deus se indigna e se entristece com nosso coração desde então. Porque desde então, e até hoje, tendemos a buscar apenas a nossa verdade, as nossas convicções, a nossa forma de pensar. Fizemo-nos para nós a nossa própria verdade, e cobrimos nossa verdade com nossas próprias obras de “justiça”, que nada fazem senão aumentar a dureza de nosso coração e nos afastar da verdadeira Verdade. Porque o que endurece nosso coração é a vaidade e temporalidade da nossa mente, a nossa ignorância acerca do que realmente importa, nosso desconhecimento da Verdade pela nossa cegueira:
“Portanto digo isto, e testifico no Senhor, para que não mais andeis como andam os gentios, na vaidade da sua mente, entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração…” (Efésios 4:17-18)
O que é necessário para que essa dureza do nosso coração seja desfeita? Basta que a luz brilhe para sermos livres de nossa cegueira; basta que o Deus, pelo Seu Espírito, tire de nós o coração de pedra, e coloque um coração de carne em seu lugar; e que, pelo mesmo Espírito, derrame em nós o amor que diferencia o novo do antigo coração; porque o Pai das luzes é também o próprio Amor.
Em Cristo achamos a prova do amor de Deus, nele também a graça e a verdade, nele o fim da lei. Sim, na Rocha ganhamos um coração de carne, porque não há Rocha mais dura (I Co 10:4, Ef 2:20); e quando o nosso coração colide com ele, somos despedaçados e reduzidos ao pó que somos (Lc 20:17-18), e ele, por sua graça, nos dá um coração de carne, e um coração quebrantado.
Se o coração de pedra causa tal reação do Senhor, cabe perceber que o coração de carne é muito diferente:
“O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.” (Salmos 51:17)
Pois de Cristo se diz:
“O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos…” (Isaías 61:1)
Sim, na Verdade tem fim toda “verdade” de nós mesmos; na Pedra de esquina toda pedra, por mais dura, é quebrada; e na sua luz é que vemos a luz, mesmo se cegos de nascença. E ao sermos livres de nossas “verdades”, conhecemos a Verdade; ao sermos quebrados e reduzidos a pó, somos refeitos à Sua imagem; e ao vermos a sua luz, passamos a andar, não pelo que vemos, mas pela fé naquele que nos devolveu a visão. Sim, Cristo, para nós Árvore da Vida, livra-nos da maldição do pecado, desse conhecimento pernicioso do bem e do mal de nós mesmos, para as maravilhas da graça de Deus nele revelada.
Há momentos em que meu “entendimento” ameaça endurecer meu coração, em que minha “ciência” me incha de tal modo que me falta o amor que realmente edifica (I Co 8:1). Nesses momentos, tudo que posso pedir é que, tocado pela indignação e tristeza do Senhor, e pelo seu imenso amor e graça, possa reencontrar nele e só nele a Verdade que busco, e o amor de que necessito; e nisso ser restaurado, como foi o homem da mão ressequida, como foi o cego de nascença; e adorá-lo com gratidão e amor.
“Pelo que, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como na provocação, no dia da tentação no deserto, onde vossos pais me tentaram, pondo-me à prova, e viram por quarenta anos as minhas obras. Por isto me indignei contra essa geração, e disse: Estes sempre erram em seu coração, e não chegaram a conhecer os meus caminhos. Assim jurei na minha ira: Não entrarão no meu descanso. Vede, irmãos, que nunca se ache em qualquer de vós um perverso coração de incredulidade, para se apartar do Deus vivo; antes exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado…” (Hebreus 3:7-13)