Sofrendo o homem
“Respondeu Jesus: Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco e vos sofrerei? Traze-me cá o teu filho.” (Lucas 9:41)
Provavelmente, se eu lhe pedisse para pensar sobre Jesus, você imaginaria alguém amoroso, paciente, até mesmo passivo. Essa é a imagem que tem sido pintada dele ao longo de séculos de Cristianismo; uma imagem que é parcialmente verdadeira, sim, mas não totalmente. Porque, mesmo sendo Deus, o Senhor Jesus também foi um homem como nós; um homem sujeito ao cansaço, físico e mental.
Esse trecho nos traz algo que seria difícil encaixar nesse “eternamente paciente” Jesus - porque essa frase é, basicamente, um desabafo. “Até quando estarei convosco e vos sofrerei”… quem não vê refletida nessa frase algo que já disse? “Até quando vão nos roubar e ninguém vai fazer nada”? “Até quando esse sofrimento vai durar”? “Até quando eu vou ter que suportar esse trânsito”?
A Bíblia conta a história de muitos homens e mulheres, e muitos deles, em um ou outro momento, disseram “até quando“. E não só homens, como também o próprio Deus:
“Disse então o Senhor a Moisés: Até quando me desprezará este povo e até quando não crerá em mim, apesar de todos os sinais que tenho feito no meio dele?” (Números 14:11)
É possível ver claramente, tanto no texto de Lucas quanto neste texto de Números, qual é a causa do desabafo de Cristo, tanto como Deus quanto como homem: o ser humano. Não o ser humano criado, mas o ser humano caído; a nossa miséria, a nossa pequenez, nossa incredulidade e “auto-suficiência”, a nossa imundície perante aquele que é perfeitamente Santo. E somos tão miseráveis que nem é preciso ser santo ou justo para se “perder a paciência” com a humanidade: basta ver a injustiça que perdura, os inocentes mortos por ganância ou motivos ainda mais banais, a violência que cresce, a falta de amor… e a falta de fé. O mundo pintado pelo gênero humano é um quadro terrível, uma espiral insana rumo à destruição do mundo pelo homem, e do homem pelo homem, na qual nossos erros gritam mais alto que nossas realizações.
Sim, a raça humana é um desastre, desde o dia em que pecou. Desde a meninice nossos pensamentos são maus, desde o ventre caminhamos para a nossa morte, para o esquecimento; antes que tenhamos consciência de nós mesmos o nosso desejo é egoísta e homicida, e toda boa realização da humanidade não é mais do que a sombra do que seríamos sem o pecado, um vislumbre da natureza dada a nós por Deus na criação e praticamente perdida pelo pecado. Sim, maldita é a terra por nossa causa; e eu, pessoalmente, vejo nessa frase mais do que uma pura relação causal, mas a sugestão de que nós mesmos, seres humanos, somos a maldição da Terra.
O Senhor Jesus sabia bem disso, pois:
“Mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos, e não necessitava de que alguém lhe desse testemunho do homem, pois bem sabia o que havia no homem.” (João 2:24-25)
Qualquer um pensaria que não resta a nós mais do que um juízo terrível pelo mal que causamos a nós mesmos, aos outros, e a esse planeta - todos eles criações de Deus. Sim, qualquer juízo é justo, qualquer castigo merecido; nós somos dignos de tal juízo, de tal castigo.
No entanto, o desabafo do homem Jesus Cristo estava diretamente relacionado à sua obra. Sim, enquanto foi um homem, ele sofreu o homem; enquanto foi um homem, ele observou as nossas misérias como um de nós, e experimentou na pele a injustiça de que somos capazes. Mas, ainda assim, ele nos amou. E se perguntou “até quando vos sofrerei”, ele o fez sabendo a resposta, e sabendo o preço dela; se não se confiou a nós, ainda assim deu sua vida por nós, morrendo em nosso lugar. O amor de Cristo, assim, torna-se ainda mais incompreensível, como Paulo também nos diz:
“Pois, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu a seu tempo pelos ímpios. Porque dificilmente haverá quem morra por um justo; pois poderá ser que pelo homem bondoso alguém ouse morrer. Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Logo muito mais, sendo agora justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira.” (Romanos 5:6-9)
O desabafo de Cristo mostra que ele sabia por quem estava morrendo. Mostra que ele sabia da nossa condição, mostra que ele o fez sem qualquer merecimento da nossa parte; que ele agiu movido por um amor do qual somos incapazes: um amor que se dá sem nada esperar em troca, sem contudo mascarar a verdade do que somos; e que por isso mesmo transcende, transformando o que somos, e quem somos; um amor que mata o velho e corrompido homem, para gerar um novo:
“Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.” (II Coríntios 5:14-15)
Eu me pego muitas vezes falando comigo mesmo “até quando eu vou ter que sofrer a raça humana”? E então sou confrontado por aquele que desabafou como eu, mas que amou de uma forma que eu sou incapaz de amar. Vejo em mim a mesma indignação, mas não o mesmo amor; e percebo assim que eu sou um dos que ele teve que suportar; um dos que, mesmo assim, ele ama; um daqueles por quem ele morreu… e espero assim, se morri com ele, achar na vida dele em mim o amor que me falta. E “nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos também nós neste mundo.” (I João 4:17)
Na terra não houve, nem jamais haverá, nenhum homem como Jesus Cristo o foi. Como também jamais ouviremos falar de um amor assim. E haverá um dia em que nem Deus, nem nosso Senhor Jesus Cristo terão mais que suportar a decaída raça humana; um dia em que aqueles que permanecerem em sua incredulidade, em sua miséria, serão destruídos; um dia em que aqueles que crerem no amor daquele que por eles morreu, e que reconhecerem sua própria condição miserável, serão dela resgatados para um vida duradoura, na qual a expressão “até quando” não fará mais sentido.
“E clamaram com grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano, santo e verdadeiro, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? E foram dadas a cada um deles compridas vestes brancas e foi-lhes dito que repousassem ainda por um pouco de tempo, até que se completasse o número de seus conservos, que haviam de ser mortos, como também eles o foram.” (Apocalipse 6:10-11)