Coisas novas e velhas

“E disse-lhes: Por isso, todo escriba que se fez discípulo do reino dos céus é semelhante a um homem, proprietário, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.” (Mateus 13:52)

Fiquei pensando boa parte da semana sobre o que poderia escrever aqui. Algo novo, diferente, e é claro, edificante. No entanto, só me vinham à mente velhas verdades, compreensões da palavra de Deus com as quais convivo há anos. E, subitamente, lembrei do texto acima.

Vivemos hoje dias em que novidade é o que conta. Tudo é muito efêmero, muito passageiro; um computador que se compra está obsoleto em meses, e há sempre uma nova tecnologia, uma nova invenção… e infelizmente, a cada dia surge uma nova “unção” ou uma nova “teologia”. E assim muitos correm atrás dessas novidades, deixando pra trás o que se conhece como se fosse velho e obsoleto.

No entanto, a vida cristã é algo construído ao longo de uma vida. E nenhuma casa é construída apenas com tijolos novos, mas também com os velhos; sim, porque cada novo tijolo é assentado sobre aquele que foi colocado antes. Lançam-se os fundamentos, e sobre os fundamentos se constrói, pouco a pouco, a casa - e os tijolos mais velhos são tão parte da casa quanto os novos.

Todo aquele que estuda a palavra de Deus encontrará dois tipos de revelações: as novas e as velhas. E um erro comum é buscarmos as “novas revelações” desconsiderando as antigas — sem compreender que as antigas revelações é que são a base firme sobre as quais as novas compreensões devem ser alicerçadas — de modo que é fácil cair no engano de uma falsa revelação.

A Bíblia fala ainda mais sobre essa relação difícil entre o velho e o novo:

“Propôs-lhes também uma parábola: Ninguém tira um pedaço de um vestido novo para o coser em vestido velho; do contrário, não somente rasgará o novo, mas também o pedaço do novo não condirá com o velho. E ninguém deita vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho novo romperá os odres e se derramará, e os odres se perderão; mas vinho novo deve ser deitado em odres novos. E ninguém, tendo bebido o velho, quer o novo; porque diz: O velho é bom.” (Lucas 5:36-39)

Esse texto pode ser entendido como uma crítica ao que é velho (e num certo contexto, é exatamente isso que significa). No entanto, pode também ser entendido como um argumento em favor da coexistência de ambos, novo e velho. Quem já não teve aquela roupa velha que era muito mais gostosa e confortável do que qualquer roupa nova? E qual bom apreciador de vinhos prefere o vinho novo ao velho? Mas que roupa teremos no futuro se jamais comprarmos uma nova? E haverá vinho velho que já não tenha sido novo? O que já conhecemos deve permanecer como a base em que nos apoiaremos para prosseguir na nossa fé; e o novo deve existir, para que prossigamos de fato nessa mesma fé. No tesouro há coisas novas e velhas, como há lugar para o vinho novo e o velho. E não devemos misturar as coisas, tampouco — nem apresentar coisas velhas como se novas fossem (Heb 6:1-3), nem colocar o vinho novo em odres velhos; antes, reconhecer cada coisa pelo que é.

O texto acima tem uma informação extra, muito interessante; ele diz que “ninguém, tendo bebido o vinho velho, quer o novo; porque o velho é bom” (ou, como diz uma variante de tradução, “porque o velho é melhor”). Há várias maneiras de interpretar esse texto, mas vou focar em uma apenas: o vinho novo pode ser tomado, mas será melhor se envelhecer, para ser realmente apreciado (como qualquer bom enólogo vai confirmar). E o que se conclui disso?

Novas revelações são inúteis se não envelhecem conosco, se não passam a fazer parte da nossa experiência, se não passam pelo crivo da prática e da obediência, se não passam a fazer parte do que somos. Se o cimento não secar, não se pode edificar sobre os tijolos que foram colocados; se não obedecermos no que já sabemos, como obedecer no que nos será dado de novo? Assim é que prosseguimos na vida cristã: transformando o que é novo em algo velho, no qual possamos alicerçar o que mais de novo venhamos a receber — sendo transformados, de fé em fé, na imagem de Cristo (II Co 3:18).

É interessante como parte fundamental da obra do Espírito Santo em nós consiste em nos fazer lembrar do que aprendemos (João 14:26); e é interessante como Jeremias sempre buscava trazer à mente o que conhecia de Deus, para ter esperança (Lam 3:21). É curioso que as principais festas do povo de Israel, no Velho Testamento, apontassem para o que Deus já havia feito, e para o modo como tinha já se revelado — como é curioso que tais festas também apontassem para algo ainda por vir. E é curioso que um dos “sacramentos” da igreja no Novo Testamento seja também um memorial, uma proclamação da morte de Cristo, algo que é passado para nós — mas que, paralelamente, anuncia algo novo, que é a sua volta (I Co 11:23-26).

Sempre acharemos na palavra de Deus coisas novas e velhas. Ambas são necessárias pra nós, ambas importantes. Não sejamos tentados, jamais, a desprezar o que é velho, nem tampouco o que é novo; antes, que sejamos sempre sábios o suficiente para tornar ao tesouro, a cada dia; e nele acharmos, diariamente, coisas novas e velhas, e sermos edificados continuamente em ambas.

“E nisto sabemos que o conhecemos; se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade; mas qualquer que guarda a sua palavra, nele realmente se tem aperfeiçoado o amor de Deus. E nisto sabemos que estamos nele; aquele que diz estar nele, também deve andar como ele andou. Amados, não vos escrevo mandamento novo, mas um mandamento antigo, que tendes desde o princípio. Este mandamento antigo é a palavra que ouvistes. Contudo é um novo mandamento que vos escrevo, o qual é verdadeiro nele e em vós; porque as trevas vão passando, e já brilha a verdadeira luz.” (I João 2:3-8)

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