Correr e lutar

O Senhor Jesus tinha por costume usar coisas do cotidiano para ensinar, para fazer com que as pessoas refletissem. E é com essa intenção que tenho pensado em como aproveitar esse clima de Copa do Mundo pra tirar algum proveito no que diz respeito à vida cristã cotidiana, à nossa vivência cristã. Não que torcer por algum time na Copa seja errado, nada disso. É que quero adicionar ao temporal aquilo que é eterno, ao corruptível o que é incorruptível; ou seja, aproveitar a Copa do Mundo para pensarmos em algumas coisas referentes à Palavra de Deus.

A Bíblia faz pouquíssimas referências a esportes. Eu só consigo lembrar de dois trechos, um dos quais comento a seguir:

“Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só é que recebe o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. E todo aquele que luta, exerce domínio próprio em todas as coisas; ora, eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível, nós, porém, uma incorruptível. Pois eu assim corro, não como indeciso; assim combato, não como batendo no ar. Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à submissão, para que, depois de pregar a outros, eu mesmo não venha a ficar reprovado.” (I Coríntios 9:24-27)

Paulo, nesse primeiro texto, usa dois esportes como exemplos: a corrida e a luta greco-romana. E ele os usa para falar de coisas distintas, mas relacionadas. Há muito que poderia ser dito sobre esse texto, mas eu só queria compartilhar que impressões o texto causou em mim, o que mais me chamou a atenção.

Uma das coisas que o texto deixa claro é que precisamos de foco, de um alvo, de um objetivo. E devemos perseguir esse alvo com foco, com persistência, com disciplina, para ganharmos o prêmio. Paulo fala qual era o seu alvo, e qual era seu prêmio:

“Mas o que para mim era lucro passei a considerá-lo como perda por amor de Cristo; sim, na verdade, tenho também como perda todas as coisas pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como refugo, para que possa ganhar a Cristo, e seja achado nele, não tendo como minha justiça a que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé; para conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição e a participação dos seus sofrimentos, conformando-me a ele na sua morte, para ver se de algum modo posso chegar à ressurreição dentre os mortos. Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas vou prosseguindo, para ver se poderei alcançar aquilo para o que fui também alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo pelo prêmio da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus. Pelo que todos quantos somos perfeitos tenhamos este sentimento; e, se sentis alguma coisa de modo diverso, Deus também vo-lo revelará.” (Filipenses 3:7-15)

O alvo do Brasil nessa copa é o hexacampeonato. O alvo de Paulo era Cristo. E o prêmio de Paulo também era Cristo. E não tenho dúvidas de que era isso que ele tinha em mente ao escrever aos coríntios: corram para o alvo que é Cristo; corram com foco, com perseverança, com domínio próprio; corram de maneira a alcançá-lo. Mas como fazer isso? Como correr de forma a alcançá-lo?

Aí me lembrei de uma outra frase de Paulo, que, ainda que num contexto diferente, me ajudou a entender o que ele disse:

“Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia.” (Romanos 9:16)

Peraí. Devemos correr, mas não depende do que corre? Como assim?

O segredo do que Paulo nos diz nesse texto está na primeira coisa que ele diz aos coríntios: “muitos correm, mas só um é que recebe o prêmio”. De fato, muitos correm. Mas um só venceu:

“E eu chorava muito, porque não fora achado ninguém digno de abrir o livro nem de olhar para ele. E disse-me um dentre os anciãos: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu para abrir o livro e romper os sete selos.” (Apocalipse 5:4-5)

Paulo começa o texto de Filipenses falando que considerou todos os seus próprios méritos como perda, a fim de ser achado em Cristo. E assim entendemos que corremos legitimamente quando reconhecemos que Cristo foi o único a vencer, de todos os homens que já correram; que só venceremos se formos achados nele; que ele, nosso alvo e prêmio, é também o segredo da nossa corrida; que ele é mais que o pódio, mas também o caminho pelo qual se corre. Só alcançamos a Cristo se nos achamos nele; e se ele é o único que vence, só corremos de forma a vencer se formos encontrados nele.

Assim, correr, nesse caso, não implica o nosso esforço, mas a dependência nos méritos de Cristo; e a coroa que recebemos não é a nossa, senão a que ele nos dará naquele dia. Não haverá mérito em nós, senão nele; assim não dependerá de quem quer ou corre, mas simplesmente da graça de Deus em Cristo, da misericórdia a que temos acesso nele pela fé.

Ninguém sabe se o Brasil vai ser hexacampeão ou não. Podemos, no entanto, ter certeza de que um só venceu e é digno de abrir o livro, e de que só seremos vencedores se formos achados nele, se deixarmos nossos méritos de lado em favor dos méritos dele; e, dependentes dele, acharemos não o cansaço de uma vitória apertada, mas descanso, vida, e vitória. E que possamos, ao final da nossa vida, dizer como Paulo nos diz em II Timóteo 4:7-8, que tomo a liberdade de parafrasear aqui para ajudar no entendimento:

“Lutei uma boa luta, cheguei ao final da corrida, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.”

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