A aparência do mal

“Abstende-vos de toda aparência do mal.” (I Tess 5:22, versão Almeida Revista e Corrigida)

Há muito tempo que ouço que devemos nos “afastar da aparência do mal”. E, normalmente, isso é dito com o seguinte significado: de que precisamos nos afastar de qualquer coisa que pareça com o mal, mesmo que não o seja na prática.

Curiosamente, se essa fosse a interpretação correta, então o Senhor Jesus se complicaria e muito. Sim, porque basta uma leitura superficial dos evangelhos para ver que ele pouco se importava com essa “aparência do mal”: ele comeu com publicanos e pecadores; conversou com uma mulher samaritana, sozinho, à beira de um poço; permitiu-se ter os pés lavados por uma prostituta; comeu e bebeu com liberdade (ainda que com moderação), a ponto de ser chamado por alguns de “comilão e beberrão”… coisas que para muitos, em muitas circunstâncias, tinham essa “aparência do mal”… sem, contudo, serem más de fato.

Sendo assim, algo no nosso entendimento desse texto deve estar errado. Por isso, vejamos o que o verso citado realmente diz:

“Abstende-vos de toda espécie de mal.” (I Tess 5:22, versão de Almeida de acordo com os melhores textos em grego)

“Abstende-vos de toda forma de mal.” (I Tess 5:22, versão de Almeida Revista e Atualizada)

“Evitem todo tipo de mal.” (I Tess 5:22, Bíblia na Linguagem de Hoje)

Ah, que diferença, não? Só para esclarecer bem: no original grego, o termo traduzido por “aparência”, ou “espécie” é “eidos” — significando literalmente “o que se vê; forma, aparência, vista”. Esse termo é usado, por exemplo, quando a Bíblia diz que o Espírito Santo desceu sobre o Cristo na “forma”, ou “aparência” de uma pomba (Lucas 3:22). O que esse termo significa no contexto desse verso?

Perceba, o texto não diz que devemos evitar algo que pareça mau, mas sim algo que seja mau, em qualquer uma das formas em que o mal se apresenta. O texto, originalmente, fala de essência — do mal que se esconde em aparências “aceitáveis”, não dos atos de justiça que pareçam maus. Interpretar o texto como exposto inicialmente é valorizar a aparência, em detrimento da essência — valorizar o que se vê, não o que se é; enquanto que interpretá-lo corretamente fala de essência, de fazer o bem mesmo que não pareça o bem, e de evitar o mal mesmo quando não parece o mal.

O Senhor nos deixou exemplo. Ele jamais se deixou impedir pela “aparência do mal” da interpretação equivocada do texto; antes, a despeito do que os fariseus e outros pensavam das suas atitudes, ele foi perfeitamente bom, e perfeito em bondade, e nele jamais se achou pecado. E o Senhor também nos deixou exemplo ao perceber o mal com uma capa de bondade — por exemplo, quando Pedro lhe sugeriu que não morresse (Mat 16:22-23).

Vivamos assim em liberdade no Senhor, sabendo que prestaremos contas a Ele, não a qualquer homem. Vivamos assim sabendo que tudo que procede duma fé pura, da obediência de um coração quebrantado, segundo a vontade de Deus e segundo a Sua palavra é bom, se vem de Deus e para Ele torna; quer os homens o considerem assim ou não. Sejamos como Cristo, sigamos seu exemplo; e achemos nele o bem e a verdade que só podem ser encontradas nele, e não em qualquer outro homem.

“…(porque andamos por fé, e não por vista)…” (II Coríntios 5:7) (nota: a palavra traduzida por “vista” nesse texto é também “eidos”)

“Pois busco eu agora o favor dos homens, ou o favor de Deus? Ou procuro agradar aos homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo.” (Gálatas 1:10)

“Porque a nossa exortação não procede de erro, nem de imundícia, nem é feita com dolo; mas, assim como fomos aprovados por Deus para que o evangelho nos fosse confiado, assim falamos, não para agradar aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações.” (I Tessalonicenses 2:3-4)

“Não julgueis pela aparência mas julgai segundo o reto juízo.” (João 7:24)

Comentários estão desabilitados.