Escândalo (parte 2)

“Disse Jesus a seus discípulos: É impossível que não venham tropeços, mas ai daquele por quem vierem! Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e fosse lançado ao mar, do que fazer tropeçar um destes pequeninos.” (Lucas 17:1-2) (nota: no original, o termo grego traduzido por “tropeço” é o mesmo traduzido por “escândalo” em vários outros textos)

Não é curioso que achemos essas palavras na boca do Senhor Jesus? Ora, não foi ele que fez com que não só os fariseus se escandalizassem dele, mas mesmo seus próprios discípulos? Houve erro da parte do Senhor ao fazer isso? É claro que não. Mas, se é assim, porque o texto acima?

Como disse antes, o escândalo é uma das reações possíveis frente à contradição; é o que acontece quando negamos aquilo que nos contradiz, nos refugiando no que pensamos, na posição que já temos. Mas o texto acima mostra que há um escândalo “bom” e um escândalo “ruim”; que o bom, a exemplo do Cristo, é fundamental ao verdadeiro evangelho; e que o ruim é digno do pior dos castigos.

A pergunta é: como diferenciar um do outro? Quando nós, como cristãos, devemos escandalizar — e quando não?

A resposta fica mais clara a partir de algo bem interessante que o Senhor Jesus disse:

“E Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Tenha Deus compaixão de ti, Senhor; isso de modo nenhum te acontecerá. Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não estás pensando nas coisas que são de Deus, mas sim nas que são dos homens.” (Mateus 16:22-23)

Nesse texto está a chave para entendermos a diferença entre o “bom” escândalo e o “mau” escândalo. É que o “bom” escândalo é aquele gerado em quem pensa segundo os homens, quando confrontado com aquilo que é de Deus; e o mau escândalo é aquilo gerado naquele que pensa segundo Deus, quando confrontado com aquilo que é segundo os homens. Simplificando: se escandalizamos porque agimos segundo Deus, isso é bom; se escandalizamos porque agimos segundo nós mesmos, isso é mau.

O Senhor Jesus escandalizou muita gente, mas ele o fez porque andava segundo o exemplo que recebeu de seu Pai; porque em todo o tempo fazia o que havia aprendido de Deus. Assim, o Senhor escandalizava, sim, mas isso era bom, porque expunha o coração de todos ao seu redor, gerando transformação quando o escândalo dava lugar à mudança de mente. Isso porque ele agia segundo Deus, não segundo homens.

O escândalo que o Senhor condena no texto de Lucas 17 é justamente aquele que é causado por agir, não segundo Deus, mas segundo a maneira de pensar do homem. E esse escândalo pode gerar um fruto terrível, normalmente chamado na Bíblia em português de “tropeço” — que é quando há uma mudança de mente, gerada pelo escândalo, mas que nos faz escolher a maneira de pensar dos homens, ao invés da de Deus — sendo, assim, o inverso do fruto do bom escândalo. O escândalo segundo Deus aproxima o homem de Deus, o escândalo segundo os homens afasta o homem dEle. E nesse segundo caso, quem escandaliza estará sujeito ao juízo daquele que enviou Seu próprio Filho para que os homens se aproximassem dEle.

Pessoalmente, acredito que Paulo viu ambos os casos na sua experiência pessoal. Coloco abaixo dois textos curiosos, dois momentos da vida de Paulo que parecem semelhantes, mas que tiveram reações muito diferentes da parte do apóstolo:

“Chegou também a Derbe e Listra. E eis que estava ali certo discípulo por nome Timóteo, filho de uma judia crente, mas de pai grego; do qual davam bom testemunho os irmãos em Listra e Icônio. Paulo quis que este fosse com ele e, tomando-o, o circuncidou por causa dos judeus que estavam naqueles lugares; porque todos sabiam que seu pai era grego.” (Atos 16:1-3)

“Mas nem mesmo Tito, que estava comigo, embora sendo grego, foi constrangido a circuncidar-se; e isto por causa dos falsos irmãos intrusos, os quais furtivamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos escravizar; aos quais nem ainda por uma hora cedemos em sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós.” (Gálatas 2:3-5)

Qual a diferença entre os dois casos, o de Timóteo e o de Tito? Tenho que ser sincero e dizer que não sei porque Paulo circuncidou a Timóteo ao levá-lo. Talvez para evitar que ele fosse perseguido por ser filho de mãe judia e não circuncidado; talvez para facilitar a pregação do Evangelho entre os judeus que ainda não o conheciam, já que Paulo tinha por costume sempre pregar primeiro nas sinagogas, onde quer que fosse. Talvez fosse isso a que Paulo se referia quando disse que se fazia como “judeu para os judeus”. Talvez tenha sido o mesmo tipo de atitude que levou Paulo a dizer que jamais comeria carne, se isso fizesse tropeçar algum irmão. Essas, no entanto, são todas suposições.

Pelo segundo texto, entretanto, eu sei porque Paulo não circuncidou a Tito. Ele não o fez porque circuncidar a Tito seria evitar um escândalo necessário, um escândalo que apontava para a nova liberdade em Cristo Jesus, para a superioridade da graça sobre a lei, da nova aliança sobre a antiga; mais ainda porque havia entre os irmãos aqueles que falavam do contrário. Circuncidar a Tito seria evitar o escândalo, mas com isso também evitar a mudança de mente, da antiga aliança para a nova, da lei incapaz de justificar alguém para uma graça suficiente e salvadora, da escravidão da lei para a liberdade da graça. E Paulo sabia que não podia fazer isso, por um motivo muito simples: evitar esse escândalo seria quase similar a provocar o escândalo inverso, a concordar com os “falsos irmãos intrusos”, a condenar aqueles que ali reuniam a uma escravidão desnecessária e contrária à verdade do Evangelho.

Hoje há muitos que escandalizam e muitos que são escandalizados. Certamente, na nossa vida cristã, vamos escandalizar ou ser escandalizados. Nesse momento, o que precisamos fazer? Como proceder?

A resposta é simples. Precisamos pensar como Deus pensa, não como nós pensamos. Se formos escandalizados por causa da verdade do Evangelho, que encontremos graça diante do Senhor para mudar a nossa mente, e sermos transformados; e assim, aquele que nos escandalizou receberá seu galardão. E que também achemos graça para que, quando escandalizados pelas tradições e hipocrisias dos homens, possamos permanecer firmes na verdade do Evangelho — e nesse caso, melhor seria se o que nos escandalizou tomasse uma pedra e se lançasse ao mar.

Por mais simples que seja a resposta, às vezes pode ser difícil diferenciar entre uma coisa e outra. E nesse caso não há exatamente respostas tão fáceis, mas tão somente algo que só posso mencionar, e na qual devo simplesmente crer — algo que o Senhor Jesus disse, num dos muitos momentos em que escandalizou os fariseus:

“Rodearam-no, pois, os judeus e lhe perguntavam: Até quando nos deixarás perplexos? Se tu és o Cristo, dize-no-lo abertamente. Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo disse, e não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai, essas dão testemunho de mim. Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem; eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão; e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai.” (João 10:24-19)

Amém. Que a graça do Senhor Jesus seja com todos nós.

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