Escândalo (parte 1)

Acabei de ler novamente o evangelho de Lucas. Curiosamente, desta vez foi diferente pra mim; talvez seja hora de entendê-lo melhor, e, com a graça de Deus, de vivê-lo melhor. Mas há muito o que comentar, o que compartilhar, e pretendo fazê-lo aqui, se o Senhor permitir. Hoje, entretanto, queria falar de algo que vi claramente no evangelho de Lucas, e também na minha vivência cotidiana, e que é diretamente fruto do tema da semana passada — pois um filho possível da contradição é o escândalo.

Lendo os evangelhos, é curioso ver como o Senhor provocou escândalo, particularmente entre os fariseus. Cristo apresentava uma interpretação da lei que era escandalosa pra eles; muitos dos seus discursos foram recebidos até com ira pelos fariseus, que tencionaram matá-lo por causa das coisas que disse. E eles o mataram, não com qualquer morte, mas com a morte mais escandalosa de todas — numa cruz, símbolo de maldição; sem culpa, na infâmia e na injustiça; e pelas mãos dos gentios, o que era abominação. Sim, Cristo foi escândalo para os fariseus, e para muitos outros — ocasionalmente até mesmo para os discípulos, como é fácil comprovar nos evangelhos. E continua sendo escândalo para muitos de nós ainda hoje.

Essa semana testemunhei alguns irmãos discutindo sobre um evento organizado na igreja deles — um evento festivo, momento de alegria e comunhão. No final, uma pessoa interpelou um dos organizadores, dizendo algo como “vocês oram e estudam a Bíblia, pra depois fazer essa bagunça?”

Foi impossível não lembrar de uma das colocações desconcertantes que o Senhor Jesus fez:

“A que, pois, compararei os homens desta geração, e a que são semelhantes? São semelhantes aos meninos que, sentados nas praças, gritam uns para os outros: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamos lamentações, e não chorastes. Porquanto veio João, o Batista, não comendo pão nem bebendo vinho, e dizeis: Tem demônio; veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizeis: Eis aí um comilão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos.” (Lucas 7:31-35)

O escândalo é, basicamente, uma das reações que podemos ter quando confrontados com a contradição. Toda contradição força em nós uma escolha, uma tomada de posição; seja a favor de como pensamos, ou a favor daquilo que nos contradiz. O escândalo ocorre quando a posição que tomamos é a favor de como pensamos, ou contra aquele ou aquilo que nos contradiz. João Batista contradizia o que os fariseus conheciam; seu ascetismo os ofendia, os escandalizava. Já a liberdade demonstrada por Jesus igualmente os ofendia, igualmente os escandalizava, ainda que por motivos diferentes. A questão aí não eram as atitudes nem de João Batista nem do Senhor Jesus, mas o coração dos que os observavam — ou melhor dizendo, a reação de um coração duro ou empedernido.

Bom, se uma reação é o escândalo, qual é a outra, que concorda com o que se opõe ao modo como pensamos? É a chamada mudança de mente, ou melhor, “metanóia” — palavra grega comumente traduzida no novo testamento como “arrependimento”. Nesse texto de Lucas 7, aliás, o Senhor diz aos fariseus que eles não se submeteram ao batismo de João (chamado de “batismo de arrependimento”, este último o mesmo “metanóia”) e nisso rejeitaram o conselho de Deus, na dureza de seus corações. Assim, toda contradição causará em nós ou escândalo ou “metanóia”: a primeira se mantemos a nossa posição, a segunda se cedemos e “mudamos de idéia”.

Voltando à pessoa do nosso exemplo: não creio que os irmãos em questão tenham feito qualquer coisa de errado, ao contrário. Nos alegrarmos juntos, comermos e bebermos juntos, é uma das poucas “vaidades boas” de que podemos desfrutar debaixo do sol (Ec. 5:18). É que a expectativa do coração dela era falsa, baseada nos seus próprios (pré-) conceitos, não na liberdade que achamos em Cristo. Ela poderia ter achado naquele dia consolo e vida, se tivesse “mudado sua mente”, mas achou apenas escândalo na dureza do próprio coração — e com isso condenou a si mesma, e lançou uma dúvida e um peso que não deveria haver no coração dos meus irmãos, que tendo sido chamados à liberdade, agora questionam a sua liberdade quando julgada por outro! Não convém que seja assim.

Há muito mais a falar sobre escândalo. Esse assunto está muito longe de ser tão simples, porque envolve o homem — e o homem, como nos diz o Pregador, “buscou muitos artifícios”. Quero, no entanto, encerrar por hora com uma pergunta. Qual reação encontraremos em nosso coração em relação a Cristo: o escândalo, ou a mudança de mente?

“E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2)

“E bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim.” (Lucas 7:23)

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