Contradição

“E Simeão os abençoou, e disse a Maria, mãe do menino: Eis que este é posto para queda e para levantamento de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição (sim, e uma espada traspassará a tua própria alma), para que se manifestem os pensamentos de muitos corações.” (Lucas 2:34-35)

Como se sabe, há quatro evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Esses evangelhos têm pontos de vista distintos: Mateus fala do Messias, do cumprimento da promessa de Deus; Marcos, do servo; Lucas, do Homem; e João mostra-nos o Filho de Deus, o Verbo encarnado. Isso explica suas diferenças e semelhanças, assim como a existência e importância de cada um deles. Tenho, entretanto, uma confissão a fazer. De todos os evangelhos, o mais difícil pra mim é o de Lucas. Isso porque a forma como ele expõe o evangelho é muito direta, muito crua; ele fala do Homem e do homem muito mais que qualquer dos outros evangelhos, e ao expor o segundo Adão, ele também expõe o primeiro - e este em toda a sua inglória.

O evento do qual faz parte o texto acima só ocorre no evangelho de Lucas, e é interessante que só ocorra nesse evangelho; porque Simeão, homem justo e temente a Deus, diz algo que é o cerne do evangelho de Lucas: Jesus Cristo foi, é, e será sempre alvo de contradição. O evangelho de Lucas continua, mostrando como Cristo desconstruiu a lei, retornando-a à sua essência; como ele confundiu os fariseus, mostrando-lhes que com suas tradições negavam a essência da lei; nem seus discípulos escaparam às contradições geradas pelos seus discursos e atitudes.

Isso tudo aconteceu, no entanto, porque há um motivo para todas essas contradições, que Simeão explicita no mesmo texto: “para que se manifestem os pensamentos de muitos corações”. Sim, porque só quando nossos conceitos são confrontados é que descobrimos o que está de fato firme em nossos corações; porque é só na presença do conflito é que somos expostos. A contradição gerada pelo Senhor, ao expor os corações, teve reflexos diferentes em pessoas diferentes. Os fariseus intentaram matá-lo; a samaritana deixou sua vida devassa e seguiu a Cristo; um discípulo o traiu, outro o negou, outros fugiram; um publicano devolveu tudo que havia roubado; e por aí vai…

Ainda hoje, o verdadeiro evangelho causará em nós o mesmo efeito; e isso porque seus ensinamentos nos desafiam todo o tempo, nos mostram quem nós somos. Assim, há quem o distorça, há quem o negue, há quem o racionalize, há quem o “interprete”… e há quem o obedeça. O verdadeiro evangelho sempre terá esse efeito em nós porque é palavra de Deus, até porque fala do Verbo de Deus; e, sendo palavra de Deus, a si mesmo se define assim:

“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.” (Hebreus 4:12)

Quanta contradição há no evangelho! O justo morrendo pelos pecadores, os inimigos alcançando graça; o menor é o maior, os que se humilham são exaltados, e publicanos e meretrizes entram adiante no reino; o rei serve; o autor da Vida é morto, e na morte dele encontramos a vida; mais que isso, o que nega a si mesmo acha a plenitude da vida; e o justo não veio chamar justos, mas pecadores… e tudo encontra seu ápice na vergonha, na loucura, na maldição de uma execução numa cruz romana, na tortura e crucificação de um homem como nenhum outro, num monte chamado caveira - no qual se fez noite em pleno dia, no qual a indivisível Trindade se divide pela primeira e única vez na eternidade…

Sim, nessas contradições é o nosso coração que é exposto. É no Cristo que percebemos nossa incapacidade de amar o inimigo e o próximo, de corresponder aos valores do reino do Justo; de como nossas firmes convicções, que pensávamos ser rochas, são de fato areia; de como a carne é fraca, de como somos, no coração, homicidas, adúlteros, idólatras, escravos de nossos próprios desejos e prazeres; é ele quem nos mostra quem de fato somos, por trás das nossas “verdades” e ilusões; é ele quem nos define, quem nos vê de longe e de perto, estejamos nós em cima de uma árvore, ou à sombra de uma figueira; no templo, no pátio, ou ao pé da cruz…

Estou certo de que só seguimos o evangelho verdadeiro se ele gerar em nós, sempre, tais contradições; se ele nos expor todo o tempo na nossa fraqueza, para que a glória da graça de Deus em Cristo seja manifesta; para que, não por nossos méritos, mas pelos de Cristo, possamos viver, completa e continuamente dependentes tão unicamente da graça de Deus revelada em Seu Filho, na loucura da cruz, na glória do túmulo vazio, na esperança da Sua vinda.

Finalmente, quero lhe sugerir algo que eu gosto de fazer de vez em quando. É simples: leia o evangelho de Lucas sem racionalizá-lo, sem interpretá-lo, sem filtrá-lo. Simplesmente leia com atenção, e preste atenção às reações que surgirem em você. Se fizer isso, não tenho dúvidas de que contradições surgirão, e de que o seu coração será exposto. E aí, preste atenção, porque então você saberá quem é… e como agirá.

Que a graça do Senhor Jesus Cristo seja com você.

Comentários estão desabilitados.