Arquivo para 4 de August de 2005

A estrela da manhã

Thursday, 4 de August de 2005

“E temos ainda mais firme a palavra profética à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma candeia que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça e a estrela da alva surja em vossos corações…” (II Pedro 1:19)

Qualquer um que tenha reservado alguns momentos para contemplar o nascer do sol, o princípio de um novo dia, ou mesmo o pôr do sol, deve se lembrar da primeira estrela a surgir no céu quando o dia se vai, e que é a última estrela a desaparecer quando o dia chega. A chamada estrela da manhã, ou estrela d’alva (que hoje sabemos ser o planeta Vênus) é uma testemunha perene do começo e do fim de cada dia sobre a terra; mas sobretudo, como o próprio nome indica, a luz da noite que prenuncia a chegada do dia; a única estrela a brilhar no céu quando o sol nasce.

Pedro, ao escrever o texto acima, tinha em mente o momento em que o dia amanhece, aqueles breves momentos que antecedem o nascer do sol; quando já é dia, mas o sol não surgiu; quando o único testemunho da noite que se passou é a ausência do sol e a presença da estrela da manhã, no seu solene testemunho da misericórdia de Deus revelada em mais uma alvorada. Mas, pessoalmente, creio que Pedro tinha em si uma cena muito mais notável, que ele testemunhou pessoalmente (ou quase), sobre a qual falaremos um pouco adiante; porque primeiro quero mostrar algumas alvoradas curiosas na Bíblia, alguns eventos dos quais a estrela da manhã foi a silenciosa testemunha.

“Disse o homem: Deixa-me ir, porque já vem rompendo o dia. Jacó, porém, respondeu: Não te deixarei ir, se me não abençoares. Perguntou-lhe, pois: Qual é o teu nome? E ele respondeu: Jacó. Então disse: Não te chamarás mais Jacó, mas Israel; porque tens lutado com Deus e com os homens e tens prevalecido. Perguntou-lhe Jacó: Dize-me, peço-te, o teu nome. Respondeu o homem: Por que perguntas pelo meu nome? E ali o abençoou. Pelo que Jacó chamou ao lugar Peniel, dizendo: Porque tenho visto Deus face a face, e a minha vida foi preservada. E nascia o sol, quando ele passou de Peniel; e coxeava de uma perna.” (Gênesis 32:26-30)

Aquela era uma noite difícil para Jacó. No dia seguinte ele se encontraria com Esaú, o irmão do qual “roubara” o direito de primogenitura. Ele temia por sua vida e pela da sua família. E naquela noite, ao ficar só depois de fazer passar todos os seus bens e sua família pelo vau do Jaboque, ele lutava com um homem toda a noite. Ao amanhecer, o homem tocou em Jacó, deslocando-lhe a coxa, o que o fez coxo; esse mesmo homem lhe deu um novo nome, Israel; e esse homem o abençoou. Ao nascer do sol, Jacó saía daquele lugar, que chamou de Peniel; havia vislumbrado a Deus, sido abençoado por ele, e era agora um homem diferente. De perseguido, era agora vitorioso, ainda que fosse agora mais fraco que antes, por ser coxo; se antes era enganador (Jacó), agora era príncipe de Deus (Israel). E uma testemunha silenciosa viu o homem que entrou naquele lugar, e o novo homem que saiu dali: a estrela da manhã.

“Então Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o mar retomou a sua força ao amanhecer, e os egípcios fugiram de encontro a ele; assim o Senhor derribou os egípcios no meio do mar. As águas, tornando, cobriram os carros e os cavaleiros, todo o exército de Faraó, que atrás deles havia entrado no mar; não ficou nem sequer um deles. Mas os filhos de Israel caminharam a pé enxuto pelo meio do mar; as águas foram-lhes qual muro à sua direita e à sua esquerda. Assim o Senhor, naquele dia, salvou Israel da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar. E viu Israel a grande obra que o Senhor operara contra os egípcios; pelo que o povo temeu ao Senhor, e creu no Senhor e em Moisés, seu servo.” (Êxodo 14:27-31)

Quem conhece a história do Êxodo é capaz de imaginar que noite terrível foi essa. O povo de Israel avançava pelo deserto, seguido pelo exército de Faraó; não bastasse a fuga difícil, em certo momento viram à sua frente um obstáculo aparentemente intransponível: o mar. Mas o Senhor mandou que Moisés estendesse sua mão sobre o mar, e um vento oriental soprou toda a noite, dividindo o mar; e o povo passou a seco pelo mar, ainda que com os egípcios no seu encalço. Aquele milagre nada significaria se fossem alcançados e exterminados pelos egípcios.

Aí vem o texto acima; ao amanhecer o mar retomou sua força, e livrou o povo de Israel definitivamente da escravidão do Egito, da força da morte que os perseguia; ao amanhecer, o povo que havia sido escravo por quatrocentos e trinta anos era livre; e no céu, uma silenciosa e brilhante estrela testemunhava os primeiros momentos da liberdade tão desejada pelo povo, prometida por Deus, e finalmente alcançada.

Agora posso falar do que penso que Pedro tinha em sua mente quando escreveu o texto inicial deste estudo, porque ele também foi marcado por um amanhecer, diferente de qualquer outro.

“Ora, passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-lo. E, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro muito cedo, ao levantar do sol. E diziam umas às outras: Quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro? Mas, levantando os olhos, notaram que a pedra, que era muito grande, já estava revolvida; e entrando no sepulcro, viram um moço sentado à direita, vestido de alvo manto; e ficaram atemorizadas. Ele, porém, lhes disse: Não vos atemorizeis; buscais a Jesus, o nazareno, que foi crucificado; ele ressurgiu; não está aqui; eis o lugar onde o puseram. Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis, como ele vos disse.” (Marcos 16:1-7)

Naquela manhã, um túmulo vazio anunciava que o Cristo que havia sido morto havia ressurgido. Naquela manhã, a morte foi vencida, e nós recebemos vida pelo poder do Espírito; naquela manhã, não só a estrela da manhã foi testemunha da ressurreição do nosso Senhor, como a estrela da manhã testemunhou a vida e a glória da verdadeira estrela da manhã:

“Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas a favor das igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã.” (Apocalipse 22:16)

Como ao amanhecer depois de Peniel um Jacó praticamente morto se tinha tornado Israel, como no Êxodo um povo de Israel quase morto encontrou a liberdade ao amanhecer, na ressurreição de Cristo Deus nos deu vida com ele, a saber, a todos os que crêem no seu nome, e que com ele foram crucificados; se fomos mortos com Cristo, somente na sua ressurreição recebemos a verdadeira vida, a verdadeira liberdade, a derradeira vitória — sobre o pecado e sobre a morte. E nessa vida eterna, a estrela da manhã não é somente a testemunha, mas o autor dessa vida; não mais um objeto perdido no céu, mas uma pessoa habitando no nosso coração; e assim feita nossa herança e tesouro, para sempre.

“Ao que vencer, e ao que guardar as minhas obras até o fim, eu lhe darei autoridade sobre as nações, e com vara de ferro as regerá, quebrando-as do modo como são quebrados os vasos do oleiro, assim como eu recebi autoridade de meu Pai; também lhe darei a estrela da manhã.” (Apocalipse 2:26-28)