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Comendo das migalhas

Thursday, 28 de July de 2005

“E eis que uma mulher cananéia, provinda daquelas cercanias, clamava, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim, que minha filha está horrivelmente endemoninhada. Contudo ele não lhe respondeu palavra. Chegando-se, pois, a ele os seus discípulos, rogavam-lhe, dizendo: Despede-a, porque vem clamando atrás de nós. Respondeu-lhes ele: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Então veio ela e, adorando-o, disse: Senhor, socorre-me. Ele, porém, respondeu: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Ao que ela disse: Sim, Senhor, mas até os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos. Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja-te feito como queres. E desde aquela hora sua filha ficou sã.” (Mateus 15:22-28)

A atitude de Jesus, neste caso, pode parecer à primeira vista estranha. A mulher teve que se humilhar quase que completamente para que o Senhor a ouvisse. No entanto, uma vez que aquela mulher se humilhou e esperou na graça de Cristo, ele exaltou a fé daquela mulher. O Senhor Jesus agiu assim porque há um princípio oculto neste texto, mas que é extremamente importante na vida cristã cotidiana.

O que vemos nesse texto? Uma mulher se humilhando diante de Jesus; e o curioso é que Jesus não lhe elogia a humildade, mas a fé. À primeira vista, pode parecer que humildade e fé não estão relacionadas; mas a lição que esse texto nos ensina é que a humildade é proporcional à fé que se tem. Há um outro evento curioso, parecido em muitos aspectos, que reproduzo abaixo:

“Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, chegou-se a ele um centurião que lhe rogava, dizendo: Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico, e horrivelmente atormentado. Respondeu-lhe Jesus: Eu irei, e o curarei. O centurião, porém, replicou-lhe: Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado; mas somente dize uma palavra, e o meu criado há de sarar. Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz. Jesus, ouvindo isso, admirou-se, e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo que a ninguém encontrei em Israel com tamanha fé. Também vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e reclinar-se-ão à mesa de Abraão, Isaque e Jacó, no reino dos céus; mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes. Então disse Jesus ao centurião: Vai-te, e te seja feito assim como creste. E naquela mesma hora o seu criado sarou.” (Mateus 8:5-13)

O Senhor Jesus elogiou a fé daquele centurião, mas somente depois que este disse “não sou digno de que entres debaixo do meu telhado”. O Senhor admirou-se da fé desse homem, que transparecia pela sua humildade. Com essas duas histórias em vista, parece haver uma relação direta entre a fé e a humildade. Será que algum outro texto confirma isso?

“Disseram então os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé. Respondeu o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Desarraiga-te, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria. Qual de vós, tendo um servo a lavrar ou a apascentar gado, lhe dirá, ao voltar ele do campo: chega-te já, e reclina-te à mesa? Não lhe dirá antes: Prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me, até que eu tenha comido e bebido, e depois comerás tu e beberás? Porventura agradecerá ao servo, porque este fez o que lhe foi mandado? Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis; fizemos somente o que devíamos fazer.” (Lucas 17:5-10)

Assim, temos três textos em que há uma relação direta entre a fé e a humildade. Isso não é coincidência, mas uma verdade das Escrituras. Isso acontece porque uma parte importante da verdadeira fé em Deus consiste em reconhecermos quem Deus é, e quem nós somos; a fé nos mostra quão grande Deus é, e quão pequenos somos em comparação. Assim, quanto maior a fé, maior Deus é aos nossos olhos, e menores somos diante dele; que é isso, senão humildade?

“A minha mão fez todas essas coisas, e assim todas elas vieram a existir, diz o Senhor; mas eis para quem olharei: para o humilde e contrito de espírito, que treme da minha palavra.” (Isaías 66:2)

De fato, um dos frutos da fé genuína é o reconhecimento do que somos, ou melhor, do que nós não somos diante da grandeza de Deus. À medida que a nossa fé cresce pela obediência, Cristo cresce em nós, e nós diminuímos, como já disse João — “importa que ele cresça, e eu diminua”. A fé se traduz em humildade e obediência, e nessa fé Deus é glorificado; por essa fé nos aproximamos de Deus, por essa fé o conhecemos e reconhecemos; e mediante essa fé, em absoluta dependência da graça de Deus em Cristo, é que somos salvos.

“Todavia, dá maior graça. Portanto diz: Deus resiste aos soberbos; dá, porém, graça aos humildes. Sujeitai-vos, pois, a Deus; mas resisti ao Diabo, e ele fugirá de vós. Chegai-vos para Deus, e ele se chegará para vós. Limpai as mãos, pecadores; e, vós de espírito vacilante, purificai os corações. Senti as vossas misérias, lamentai e chorai; torne-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria em tristeza. Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará.” (Tiago 4:6-10)