Não deis lugar ao diabo

“Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira; nem deis lugar ao Diabo.” (Efésios 4:26-27)

Esse texto é exaustivamente citado na igreja evangélica hoje, e freqüentemente entendido como uma “prova” de que o crente pode ser influenciado diretamente pelo diabo. Mas será que a Bíblia suporta tal afirmação? Se não, o que então esse texto significa?

A primeira coisa que precisamos determinar é se o crente pode ser influenciado direta ou indiretamente pelo diabo — ou seja, qual o papel deste quanto ao crente. Biblicamente, tudo o que o diabo faz, quanto ao crente, consiste de apenas três coisas: tentar, enganar, e acusar — usando do mundo que nele jaz para fazer as três coisas citadas. Tentar significa atiçar nossa cobiça já existente, que nos faz pecar; o diabo não faz nascer em nós tal cobiça, mas tão somente chama nossa atenção para ela, para que pequemos. E, se pecamos, ainda que tentados pelo diabo, a responsabilidade é nossa, porque a cobiça não é dele, senão nossa:

“Cada um, porém, é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência; então a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.” (Tiago 1:14-15)

O engano do diabo consiste em tentar tirar nossos olhos da verdade que se encontra em Deus e no Seu Cristo, e voltar nosso olhos e ouvidos para o que queremos ouvir, para o que desejamos, ou para o que pareça com o que Deus diz, sem contudo o ser.

“Mas temo que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos entendimentos e se apartem da simplicidade e da pureza que há em Cristo.” (II Coríntios 11:3)

Finalmente, o diabo nos acusa perante Deus quando pecamos, e nos lança a acusação em rosto quando pecamos ou julgamos ter pecado, para que nos esqueçamos da graça plena encontrada em Cristo, da redenção que temos nele, e para que tentemos com nossas obras fazer algo que só pode ser feito pelo sacrifício de Cristo: cessar a acusação ao fazermos cessar o pecado.

“Então, ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e o poder, e o reino do nosso Deus, e a autoridade do seu Cristo; porque já foi lançado fora o acusador de nossos irmãos, o qual diante do nosso Deus os acusava dia e noite.” (Apocalipse 12:10)

“…e havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz; e, tendo despojado os principados e potestades, os exibiu publicamente e deles triunfou na mesma cruz.” (Colossenses 2:14-15)

A Bíblia deixa claro que, à parte dessas três ações, não há nada mais que o diabo possa fazer, pois:

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive pecando; antes o guarda aquele que nasceu de Deus, e o Maligno não lhe toca.” (I João 5:18)

Vemos assim que a expressão “não deis lugar ao diabo” nada tem a ver com ação demoníaca direta no crente através de “brechas” ou pecados, ou com influência direta ou “demonização” de um crente, ou isso contrariaria o princípio de I João 5:18. Como entender então essa expressão? Começamos a perceber seu sentido quando procuramos no Novo Testamento outra ocorrência da expressão “dar lugar”. E achamos o texto abaixo:

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor.” (Romanos 12:19)

Isso quer dizer que devemos permitir que a ira de Deus atue em nós ou através de nós? Claro que não; a expressão significa muito mais “ceder oportunidade” do que dar um lugar físico ou espiritual. O texto acima diz, parafraseando, “não vos vingueis, mas deixai que Deus se vingue no Seu tempo”. Curiosamente, o texto acima tem o mesmo contexto do nosso texto inicial, que reproduzo abaixo:

“Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira; nem deis lugar ao Diabo.” (Efésios 4:26-27)

Lembrando que o termo “diabo” é traduzido corretamente no grego como “acusador”, fica então claro o que o texto quer dizer: “não deis lugar ao diabo” significa, em outras palavras, “não dêem oportunidade ao acusador”.

Assim, fica claro que não é uma questão de “influência espiritual”; não dar lugar ao diabo é não ceder oportunidades para que o nome de Deus seja blasfemado por causa de nossos erros, ou para que sejamos acusados por ele perante Deus. Interpretando assim, muitos outros textos dão suporte a essa exortação de Paulo, como, por exemplo:

“Em tudo te dá por exemplo de boas obras; na doutrina mostra integridade, sobriedade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se confunda, não tendo nenhum mal que dizer de nós.” (Tito 2:7-8)

“Mas se tu és chamado judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; e conheces a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei; e confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instruidor dos néscios, mestre de crianças, que tens na lei a forma da ciência e da verdade; tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve cometer adultério, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Assim pois, por vossa causa, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios, como está escrito.” (Romanos 2:17-24)

Como responder ao diabo? Como resistir a ele? Só há uma coisa a fazer: reconhecer quem Deus é, e o que Ele faz em nós; reconhecer que sua graça é plena e suficiente, que o sacrifício de Cristo é completo e total. Resistimos à tentação do diabo recorrendo àquele que em tudo foi tentado, mas sem pecado; resistimos ao engano do diabo recorrendo àquele que é o caminho, a verdade, e a vida; resistimos à acusação do diabo compreendendo que pelo sangue vertido no sacrifício perfeito da cruz nossos pecados foram retirados e tratados, toda dívida paga, e que fomos comprados para Deus. Resistimos ao diabo, simplesmente, nos sujeitando a Deus e à Sua graça revelada em Cristo.

“Sujeitai-vos, pois, a Deus; mas resisti ao Diabo, e ele fugirá de vós. Chegai-vos para Deus, e ele se chegará para vós. Limpai as mãos, pecadores; e, vós de espírito vacilante, purificai os corações.” (Tiago 4:7-8)

Assim, não demos lugar ao diabo; antes, reconheçamos o poder e a glória do nosso Deus, e a graça encontrada naquele que nasceu de Deus, e que é poderoso para nos guardar do maligno.

“Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica; quem os condenará? Cristo Jesus é quem morreu, ou antes quem ressurgiu dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós…” (Romanos 8:31-34)

“Não rogo que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno.” (João 17:15)

“Mas fiel é o Senhor, o qual vos confirmará e guardará do maligno.” (II Tessalonicenses 3:3)

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