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Discernindo o corpo

Saturday, 23 de July de 2005

“De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice. Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e enfermos, e muitos que dormem.” (I Coríntios 11:27-30)

A primeira epístola aos coríntios, escrita por Paulo, nos mostra uma igreja com muitos problemas — problemas que vemos ainda na igreja visível até os dias de hoje. No capítulo onze, Paulo discorre sobre a ceia do Senhor, e a maneira como era tomada pelos coríntios, e então fala o texto acima. Há nesse texto uma constatação terrível — de que aquele que come e bebe indignamente da ceia come para sua condenação, de tal forma que é considerado culpado do corpo e do sangue do Senhor. Mas o que significa comer e beber indignamente da ceia?

A resposta está no mesmo texto: “come e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor”. Logo, comer e beber indignamente significa não discernir o corpo do Senhor. Observe que o texto não fala de pecados, porque na ceia declaramos aquilo que nos redimiu de nosso pecados; não fala de proximidade de Deus, porque a cruz que declaramos é o único caminho para tal. Ele fala simplesmente de discernir o corpo do Senhor — entender o que o corpo do Senhor é, qual sua extensão, e nosso lugar nele.

A metáfora da igreja como corpo é perfeitamente capaz de nos ensinar o que precisamos discernir do corpo do Senhor. A primeira coisa que precisamos entender é que o corpo tem muitos membros diferentes, com funções diferentes, mas é um corpo só:

“Pois assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente uns dos outros.” (Romanos 12:4-5)

É interessante notar que o corpo humano, composto por milhões e milhões de células, surge de apenas uma. De igual forma, todo o corpo de Cristo surgiu de um só - o próprio Senhor Jesus Cristo. Há, inclusive, uma coisa no corpo que é compartilhada por todos os membros; a saber, o sangue. O corpo é um porque todo ele participa do mesmo sangue; a igreja, corpo de Cristo, é uma, porque toda ela nasceu e participa de um só sangue — o sangue de Cristo. O corpo humano, embora com muitos membros, também é caracterizado por um só espírito; da mesma forma, há no corpo de Cristo um só Espírito, o Espírito de Cristo — o Espírito Santo.

“Porventura o cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Pois nós, embora muitos, somos um só pão, um só corpo; porque todos participamos de um mesmo pão.” (I Coríntios 10:16-17)

“Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito. Porque também o corpo não é um membro, mas muitos.” (I Coríntios 12:12-14)

Há mais uma coisa importante ao se discernir o corpo, e essa é compreender que todo o corpo se submete à vontade da cabeça. Como o corpo humano, o corpo de Cristo possui uma só cabeça, uma só vontade: Cristo.

“Ele é antes de todas as coisas, e nele subsistem todas as coisas; também ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência…” (Colossenses 1:17-18)

Assim, todo aquele que toma da ceia deve perceber que o sacrifício que ele declara ao tomar dela não lhe é exclusivo; que todos aqueles que tomam da ceia, todos aqueles que foram salvos pelo sacrifício de Cristo, e que tem acesso a Deus pelo seu sangue, têm seu lugar e função no corpo; que nenhuma parte do corpo é menos necessária que outra, se o corpo é perfeito; que não há mais de uma cabeça, senão uma; que se o sangue é o mesmo, o Espírito é o mesmo; que a ceia declara em Cristo a união do corpo, e que declara para nós mesmos que fazemos parte desse corpo. Se não sentimos assim, então participamos de outro sangue, de outro corpo, mas não do sangue de Cristo, não do seu corpo. Se não sentimos assim, desprezamos o sacrifício de Cristo, que em si mesmo nos fez um; se não sentimos assim, desprezamos o sangue de Cristo, pelo qual todos se tornam partes desse corpo; se não sentimos assim, se não fazemos parte do corpo de Cristo, fazemos parte daqueles que o mataram, e estamos assim sujeitos à condenação.

Assim, que possamos sempre discernir o corpo do Senhor, para que sejamos um corpo saudável e perfeito, para glória da Cabeça; e que o façamos, não somente na ceia, mas todo o tempo, declarando com nossas vidas que fomos salvos pelo sangue de Cristo, que fazemos parte do seu corpo, e que seguimos a vontade do nosso Cabeça.

“…e perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitos prodígios e sinais eram feitos pelos apóstolos. Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos.” (Atos 2:42-47)