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Sobre a inveja

Wednesday, 20 de July de 2005

“Também vi eu que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja que o homem tem do seu próximo. Também isso é e vaidade e desejo vão.” (Eclesiastes 4:4)

A Bíblia não fala somente do que Deus é, e do que ele faz, mas bastante do que nós somos, de como nos vemos, e como Deus nos vê. Um livro da Bíblia, em particular, está quase exclusivamente focado no que acontece “debaixo do sol”: o livro de Eclesiastes. Esse livro é uma visão perturbadora da humanidade, da maneira como os seres humanos se relacionam com seus semelhantes, com a natureza, com o tempo, e finalmente com Deus. É um livro à primeira vista existencialista, mas com uma mensagem importantíssima para nós.

Quando li o verso acima pela primeira vez, lembro que minha primeira reação foi pensar “não, não pode estar certo”. Levei alguns anos de meditação para entender e aceitar o que esse texto diz, e é isso que vou procurar expor aqui hoje.

A mente humana funciona à base de comparações. Comparamos nossas idéias usando padrões sonoros ou escritos, a saber, a linguagem. Se medimos a altura de alguém, é em comparação com um padrão, como o metro; o mesmo vale para peso e outras características físicas. Mas é psicologicamente que nosso pensamento é mais relativo; nós nos comparamos com os outros, até inconscientemente, o tempo todo.

Querer ser melhor sempre implica em comparação, porque se se é melhor, se é melhor que alguém ou algo. Nosso sucesso freqüentemente é medido pelo sucesso dos outros, nossa felicidade pela felicidade dos outros; muitos medem sua auto-estima pela estima que os outros lhe tem (ou parecem ter). Nossa mente não está acostumada com conceitos absolutos, porque aprendemos a sempre considerar as coisas em comparação com outras.

Essa, em suma, é a base do sentimento conhecido como inveja: comparar-se a alguém, e sentir-se inferior, desejando estar na mesma ou em melhor posição em relação aquele a quem se compara. Assim, todo esforço ou destreza em obras se dedica a alcançar um padrão desejado, obtido de tal comparação; todo esforço ou destreza em obras surge do desejo de ser ou ter algo que não somos ou não temos. Há quem diga que isso é positivo, mas a verdade é que essa é a fonte última do desespero humano: sempre almejarmos algo que não somos, algo que não temos, num círculo vicioso que consome nossa vida numa busca fútil e vã — nos termos de Eclesiastes, vaidade, desejo vão, “correr atrás do vento”. Há inclusive um lado malignamente destrutivo na inveja, que surge quando não podemos nos “elevar” para o padrão almejado, a despeito dos nossos esforços; nesse caso, a única maneira de estarmos em melhor posição que o padrão em vista é fazendo com que ele “desça” ao nosso próprio nível, ou abaixo dele. De ambas as formas, a inveja só demonstra a incapacidade do homem de ser suficiente para si mesmo.

Diante desse quadro, que esperança podemos ter? Como mudar esse círculo vicioso, como mudar a miséria humana? Como o pregador em Eclesiastes deixa claro, só Deus pode fazê-lo. E vemos isso na maneira com que Paulo adverte a igreja em Filipos:

“…nada façais por contenda ou por vanglória, mas com humildade cada um considere os outros superiores a si mesmo; não olhe cada um somente para o que é seu, mas cada qual também para o que é dos outros.” (Filipenses 2:3-4)

Eis como romper o círculo vicioso da inveja: não consiste em nos elevarmos, mas em elevarmos aqueles que estão ao nosso redor; não em se comparar com os outros no sentido de fazê-los diminuir aos nossos próprios olhos, mas para fazê-los crescer; não nos tornando superiores, mas tornando os outros superiores. E tal mecanismo só pode funcionar dentro do contexto da igreja, em que cada membro opera para o correto funcionamento e crescimento do corpo; porque assim passamos de um padrão comparativo pessoal para um padrão geral, em que o ganho não está no individual, mas no coletivo. Isso eleva o padrão geral, de forma que cada parte não se compara mutuamente, mas o padrão geral começa a tomar forma frente a algo inimaginável de outra maneira: o absoluto.

Há um conto chinês que gostaria de contar, que ilustra bem a idéia acima.

"Naquele tempo, um discípulo perguntou ao vidente: 'Mestre, qual é a diferença entre o céu e o inferno?' E o vidente respondeu: 'Ela é muito pequena e, contudo, com grandes consequências.'

Vi um grande monte de arroz, cozido e preparado como alimento. Ao redor dele muitos homens, quase a morrer. Não podiam se aproximar do monte de arroz. Mas possuiam longos palitos de dois a três metros de comprimento (os chineses, naquele tempo, já comiam arroz com palitos). Apanhavam, é verdade, o arroz. Mas não conseguiam levá-lo à própria boca, porque os palitos, em suas mãos, eram muito longos. E assim, famintos e moribundos, embora juntos, mais solitários permaneciam, curtindo uma fome eterna, diante de uma fartura inesgotável. E isso era o inferno.

Vi outro grande monte de arroz, cozido e preparado como alimento. Ao redor dele muitos homens. Famintos, mas cheios de vitalidade. Não podiam se aproximar do monte de arroz. Mas possuiam longos palitos de dois a três metros de comprimento. Apanhavam o arroz. Mas não conseguiam levá-lo à própria boca, porque os palitos, em suas mãos, eram muito longos. Mas com seus longos palitos, em vez de levá-los à própria boca, serviam uns aos outros o arroz. E assim matavam sua fome insaciável. Numa grande comunhão fraterna. Juntos e solidários. Gozando a excelência dos homens e das coisas. E isso era o céu."

A comunhão cristã, no vínculo perfeito do amor, faz com que todo trabalho ou destreza não seja para se elevar em relação a um padrão, mas para elevar o próprio padrão coletivo. Quando se faz tal coisa, então o padrão relativo se dirige a um objetivo definido, um padrão único, não relativo, mas absoluto: o próprio Deus, a quem servimos, de quem vem tal amor, e que é Pai de todos aqueles que crêem; e nEle encontraremos não a inveja ou a insatisfação, mas a plenitude, a perfeição, a eternidade… e a paz.

“Adverte-lhes que estejam sujeitos aos governadores e autoridades, que sejam obedientes, e estejam preparados para toda boa obra, que a ninguém infamem, nem sejam contenciosos, mas moderados, mostrando toda a mansidão para com todos os homens. Porque também nós éramos outrora insensatos, desobedientes, extraviados, servindo a várias paixões e deleites, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Mas quando apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador e o seu amor para com os homens, não em virtude de obras de justiça que nós houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou mediante o lavar da regeneração e renovação pelo Espírito Santo, que ele derramou abundantemente sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador; para que, sendo justificados pela sua graça, fôssemos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna. Fiel é esta palavra, e quero que a proclames com firmeza para que os que crêm em Deus procurem aplicar-se às boas obras. Essas coisas são boas e proveitosas aos homens.” (Tito 3:1-8)

“E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.” (Colossenses 3:17)