Arquivo para 5 de July de 2005

O progresso da vida cristã

Tuesday, 5 de July de 2005

“Pois já ouvistes qual foi outrora o meu procedimento no judaísmo, como sobremaneira perseguia a igreja de Deus e a assolava, e na minha nação excedia em judaísmo a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais. Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça, revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, não consultei carne e sangue, nem subi a Jerusalém para estar com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco.” (Gálatas 1:13-17)

Paulo é, de muitas formas, um dos principais apóstolos, senão o principal, dentro do contexto doutrinário do Novo Testamento; isso em grande parte porque cerca de metade dos livros do Novo Testamento foram escritos por ele. Em suas várias viagens missionárias, Paulo visitou quase todo o mundo ocidental conhecido de então, até os confins do Império Romano ocidental. Seu cuidado e sabedoria são confirmadas pelo apóstolo Pedro, o principal dos doze, que diz assim:

“Pelo que, amados, como estais aguardando estas coisas, procurai diligentemente que por ele sejais achados imaculados e irrepreensível em paz; e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; como faz também em todas as suas epístolas, nelas falando acerca destas coisas, nas quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, como o fazem também com as outras Escrituras, para sua própria perdição.” (II Pedro 3:14-16)

Paulo, no entanto, foi um homem como qualquer um de nós, e um cristão como qualquer outro; foi alvo da mesma graça em Cristo, da mesma eleição da parte de Deus; fez parte da mesma igreja da qual fazemos parte, teve em si o mesmo Espírito que hoje ainda habita no crente, e, como qualquer um de nós, creu no Senhor, e prosseguiu no seu conhecimento de Deus. A vida cristã é similar à vida natural, no sentido em que, quando jovens, somos fortemente levados pelos sentidos; mas, à medida que aprendemos e crescemos, cada vez mais damos lugar à razão, e descobrimos quem de fato somos, ou quem devemos ser.

O mesmo aconteceu com Paulo. Isso é claramente visível em três trechos distintos de suas cartas. Eis o primeiro:

“Pois eu sou o menor dos apóstolos, que nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a igreja de Deus.” (I Coríntios 15:9)

Paulo começa, antes da sua conversão, como perseguidor da igreja. Um tempo considerável depois da sua conversão, ao escrever sua primeira carta aos Coríntios, Paulo se declara “o menor dos apóstolos”. Há nisso um progresso na humildade de Paulo, mas há ainda um certo orgulho; porque Paulo é o menor, mas o menor dos apóstolos. E Paulo, na mesma epístola, diz:

“E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro mestres, depois operadores de milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.” (I Coríntios 12:28)

Então entendemos: Paulo se diz o menor… daqueles colocados em primeiro lugar na igreja. Graças a Deus, Paulo continua crescendo no Senhor, e escreve a carta aos Efésios, que contém este trecho:

“A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar aos gentios as riquezas inescrutáveis de Cristo…” (Efésios 3:8)

Os “santos” a que Paulo se refere são todos aqueles que creram e foram santificados pelo sacrifício de Cristo — logo, todos os que crêem, ou seja, a igreja. Paulo agora se diz o menor dos santos; o mínimo de todos os que crêem. Houve um notável progresso na humildade de Paulo, mas que ainda é pouco comparado ao estágio final de seu progresso cristão, como vemos em sua primeira epístola a Timóteo:

“Fiel é esta palavra e digna de toda a aceitação; que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o principal; mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, o principal, Cristo Jesus mostrasse toda a sua longanimidade, a fim de que eu servisse de exemplo aos que haviam de crer nele para a vida eterna.” (I Timóteo 1:15-16)

Agora Paulo se diz o principal, o maior dos pecadores; o menor de todos os homens, crentes ou não. Aqui sim Paulo atinge a maturidade cristã, pois só então ele percebe uma verdade fundamental: que a única diferença entre o pior dos pecadores e o maior dos apóstolos é a graça de Deus, e esta imerecida; de modo que nenhum homem pode se gloriar diante de Deus.

“Mas agora, sem lei, tem-se manifestado a justiça de Deus, que é atestada pela lei e pelos profetas; isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos os que crêem; pois não há distinção. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs como propiciação, pela fé, no seu sangue, para demonstração da sua justiça por ter ele na sua paciência, deixado de lado os delitos outrora cometidos; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e também justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde está logo a jactância? Foi excluída. Por que lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé.” (Romanos 3:21-27)

De fato, o crescimento cristão segue a conhecida frase de João Batista, ao se referir a Cristo:

“É necessário que ele cresça e que eu diminua.” (João 3:30)

A vida cristã nada mais é do que Cristo crescendo em nós, e nós diminuindo, nessa ordem; de nada adianta tentarmos nos anular, porque a Escritura não diz “eu diminua, e ele cresça” mas “ele cresça, e eu diminua”. Quando Cristo cresce em nós, nós diminuímos; e o alvo da vida cristã é que Cristo seja plenamente revelado em nós; que ele viva em nós e através de nós.

“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.” (Gálatas 2:20)

Assim, aprendamos com o exemplo de Paulo, e sigamos seu conselho e exemplo:

“Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo.” (I Coríntios 11:1)

“Sede pois imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como Cristo também vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave.” (Efésios 5:1-2)

“Fiel é esta palavra e digna de toda a aceitação; que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o principal; mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, o principal, Cristo Jesus mostrasse toda a sua longanimidade, a fim de que eu servisse de exemplo aos que haviam de crer nele para a vida eterna.” (I Timóteo 1:15-16)