A jumenta e as pedras

“E, vendo a jumenta o anjo do Senhor, deitou-se debaixo de Balaão; e a ira de Balaão se acendeu, e ele espancou a jumenta com o bordão. Nisso abriu o Senhor a boca da jumenta, a qual perguntou a Balaão: Que te fiz eu, para que me espancasses estas três vezes? Respondeu Balaão à jumenta: Porque zombaste de mim; oxalá tivesse eu uma espada na mão, pois agora te mataria. Tornou a jumenta a Balaão: Porventura não sou a tua jumenta, em que cavalgaste toda a tua vida até hoje? Porventura tem sido o meu costume fazer assim para contigo? E ele respondeu: Não. Então o Senhor abriu os olhos a Balaão, e ele viu o anjo do Senhor parado no caminho, e a sua espada desembainhada na mão; pelo que inclinou a cabeça, e prostrou-se com o rosto em terra.” (Números 22:27-31)

Esse é um episódio curioso das Escrituras. No intuito de amaldiçoar o povo de Israel, Balaque “contrata” os serviços do profeta Balaão, que aceita o convite, ainda que Deus lhe tivesse dito para não amaldiçoar o povo. No caminho, o Senhor se opôs a Balaão, para impedir o que estava por fazer; e o resultado disso é que, assim como a jumenta foi espancada três vezes, o povo de Israel foi abençoado três vezes, ao invés de ser amaldiçoado, como queria Balaque.

Temos algumas lições importantes nesse texto. A primeira lição, e que inclusive podemos ver com mais detalhes em outro estudo no futuro, é que é impossível amaldiçoar o que Deus abençoou. A segunda lição é que Deus usa quem Ele quer para falar — até um animal, se necessário. É curioso ver que Deus usou um animal mudo para falar com um profeta, quando normalmente o profeta seria aquele a falar as palavras de Deus. Isso mostra que o profeta não é melhor que o animal; ao contrário, o que faz a diferença entre um e outro nesse contexto é o que se vê, e por quem se fala. Hoje há muitos “homens de Deus” tomados pelo orgulho de serem usados por Deus para falar alguma coisa; mas se Deus usa até um animal mudo para falar, não cabe mais orgulho algum, não é mesmo?

Há mais lições nesse texto, mas prefiro deixar que você mesmo as encontre. Isso porque há algo mais importante que quero lhe mostrar. Assim, vemos Deus usou uma jumenta, um animal mudo, para falar com um profeta, porque assim quis, já que Ele próprio não queria falar (ao menos não até um momento posterior). Há um outro evento envolvendo uma jumenta na Bíblia, que nos fala de outro aspecto interessante:

“Ide à aldeia que está defronte de vós, e logo encontrareis uma jumenta presa, e um jumentinho com ela; desprendei-a, e trazei-mos. E, se alguém vos disser alguma coisa, respondei: O Senhor precisa deles; e logo os enviará. Ora, isso aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Dizei à filha de Sião: Eis que aí te vem o teu Rei, manso e montado em um jumento, em um jumentinho, cria de animal de carga. Indo, pois, os discípulos e fazendo como Jesus lhes ordenara, trouxeram a jumenta e o jumentinho, e sobre eles puseram os seus mantos, e Jesus montou. E a maior parte da multidão estendeu os seus mantos pelo caminho; e outros cortavam ramos de árvores, e os espalhavam pelo caminho. E as multidões, tanto as que o precediam como as que o seguiam, clamavam, dizendo: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!” (Mateus 21:2-9)

“Quando já ia chegando à descida do Monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos, regozijando-se, começou a louvar a Deus em alta voz, por todos os milagres que tinha visto, dizendo: Bendito o Rei que vem em nome do Senhor; paz no céu, e glória nas alturas. Nisso, disseram-lhe alguns dos fariseus dentre a multidão: Mestre, repreende os teus discípulos. Ao que ele respondeu: Digo-vos que, se estes se calarem, as pedras clamarão.” (Lucas 19:37-40)

Se Deus usou uma jumenta para falar com um profeta, para impedí-lo de amaldiçoar o povo de Israel, aqui vemos um passo a mais; que se as pessoas parassem de bendizer àquele que veio em nome do Senhor, então as pedras o fariam. Deus, nesses dois textos, usa duas coisas sem voz para nos falar de dois conceitos importantíssimos; que ninguém pode amaldiçoar o que Deus abençoou, e que ninguém pode impedir a sua bênção.

Ora, onde estava a benção de Deus em ambos os textos? No primeiro texto, era o anjo do Senhor. No segundo, o Rei que vinha em nome do Senhor, Jesus Cristo. E, como já vimos em outro estudo, ambos são a mesma pessoa! Assim, em Cristo, temos a anulação da maldição do pecado e da lei, e a benção eterna para com Deus, e que não pode ser impedida, de tal forma que, se os homens não a proclamarem, a própria criação o fará.

Há dois pontos em comum nos textos acima. Um é que nos dois temos uma jumenta, e nos dois casos há um profeta montando um muar. A diferença é que, se havia loucura no primeiro, há sabedoria no segundo; se havia maldição no primeiro, há benção no segundo; se havia morte no primeiro, há vida no segundo; se um foi impedido pela voz humana de quem não fala, o segundo seria aclamado pela voz humana de quem não fala; se no primeiro havia injustiça, no segundo há justiça plena; se o primeiro foi contratado por um rei ímpio, o segundo era o Rei que vinha em nome do Senhor.

Em Cristo temos o fim da maldição, em Cristo temos a bênção plena de Deus. Mais que isso, toda a natureza dá testemunho de Cristo, de forma que até o que não tem voz proclama a glória de Deus e do Seu Cristo.

“Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.” (Salmos 19:1-2)

“Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis…” (Romanos 1:20)

Se o que não tem voz o faz, o que resta a nós, que temos, senão nos juntarmos à criação, a proclamar com nossa voz a bênção de Deus em Cristo, e invocar o Nome bendito daquele que vem em nome do Senhor?

“Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Filipenses 2:9-11)

“Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora; e não só ela, mas até nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguardando a nossa adoção, a saber, a redenção do nosso corpo. Porque na esperança fomos salvos. Ora, a esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos.” (Romanos 8:19-25)

Comentários estão desabilitados.