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O vinho e o Espírito

Wednesday, 22 de June de 2005

“Por isso, não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, no qual há devassidão, mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós em salmos, hinos, e cânticos espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração, sempre dando graças por tudo a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.” (Efésios 5:17-21)

Esse é um texto relativamente bem conhecido das Escrituras. A frase “não vos embriagueis com vinho, mas enchei-vos do Espírito” é repetidamente mencionada em muitos cultos e pregações evangélicas. No entanto, às vezes há um entendimento distorcido deste texto — algo chamado popularmente de “estar embriagado do Espírito”. A Bíblia suporta tal coisa?

Em primeiro lugar, consideremos o português (e a lógica abaixo também serve para o grego, língua original do texto). A palavra “mas”, como se sabe, é uma conjunção adversativa; ela é normalmente usada para apresentar duas idéias ou frases em oposição parcial ou total. Dessa forma, segundo o texto, nos embriagarmos com vinho é contrário a encher-se do Espírito, e não similar. Quando vemos o que o vinho produz em nós, e vemos o que o Espírito produz em nós, é facil perceber a oposição entre os dois.

Primeiro, vejamos a embriaguez com o vinho, no qual, segundo o texto acima, “há devassidão”. Percebam que o problema não é o vinho em si, mas o embriagar-se com ele. Entendemos isso melhor ao vermos o texto abaixo:

“Não olhes para o vinho quando se mostra vermelho, quando resplandece no copo e se escoa suavemente. No seu fim morderá como a cobra, e como o basilisco picará. Os teus olhos verão coisas estranhas, e tu falarás perversidades. Serás como o que se deita no meio do mar, e como o que dorme no topo do mastro. E dirás: Espancaram-me, e não me doeu; bateram-me, e não o senti; quando virei a despertar? Ainda tornarei a buscá-lo outra vez.” (Provérbios 23:31-35)

Portanto, o vinho tem algumas características notáveis nesse texto. Ele é vermelho e resplandece no copo, duas coisas que apetecem aos olhos. Ele escoa suavemente, uma sensação tátil. Da mesma forma que ele desperta os sentidos, ele diminui a dor ( “não doeu”, “não senti” ), além de distorcer a percepção e o julgamento consciente, o domínio próprio ( “verão coisas estranhas”, “falarás perversidades”, “quando virei a despertar” ), e por todos esses motivos, pode se transformar em um caminho de fuga ( “tornarei a buscá-lo outra vez” ).

Todas essas características não provém necessariamente do vinho, mas do que a embriaguez gerada por ele causa nos sentidos e percepções do homem — de forma que ele afeta, nesse texto, toda a alma humana, já que excita as emoções, distorce a mente, e enfraquece a vontade.

Ora, se a embriaguez com o vinho é assim, o que o Espírito produz em nós?

“Mas o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio; contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito.” (Gálatas 5:22-25)

Percebam como o fruto do Espírito se opõe aos efeitos da embriaguez, como vimos em Provérbios 23. Há amor ao invés de desejo egoísta, gozo ou alegria ao invés da tristeza e da negação da dor; paz, ao invés do conflito ( “espancaram-me” ); longanimidade, ao invés de imediatismo; benignidade e bondade, ao invés de perversidade; fidelidade, em oposição à fuga e dependência; mansidão, ao invés de estupor; e domínio próprio, em oposição ao princípio elementar da embriaguez: a perda do julgamento consciente, pleno e ativo sobre todas as manifestações da alma.

Assim, o vinho representa a dependência humana das sensações, do “abalar” da alma, ou seja — da mente, da emoção, da vontade; de ter o julgamento prejudicado por uma emoção violenta, de ter as emoções excitadas num louco exercício de vontade, por ter a vontade iludida pelo mau julgamento. O vinho representa a tendência humana de se entregar ao desejo inconsciente e perverso existente em todo ser humano, o desejo narcísico e egoísta, o desejo psicanalítico e latente, derivado do pecado — a fonte última do desespero humano, e a causa última da necessidade de fuga, que muitas vezes se encontra na embriaguez.

Vemos que a Bíblia coloca essa imagem em oposição ao Espírito:

“Estes são os que causam divisões; são sensuais, e não têm o Espírito.” (Judas 1:19)

A palavra usada para “sensuais” no grego é psuchikos, que vem de psuche, a palavra grega para a alma; ou seja, sensuais, nesse contexto, são aqueles que se apegam à percepção da alma, às coisas que a afetam, ou seja, que afetam nossa mente, emoção e vontade, positiva ou negativamente. Ora, convém que sejamos assim? Claro que não, porque o Espírito se opõe a isso. O que o Espírito produz em nós é liberdade; liberdade do nosso desejo latente, do nosso descontrole íntimo, do nosso desespero humano; o que ele oferece não é a sobrecarga ou o estupor dos nossos sentidos, mas a plena realização dos mesmos, não no que percebemos pelos nossos sentidos, mas no que não vemos ou compreendemos, mas que nos é comunicado pelo próprio Espírito; assim, nossa alma é liberta do seu íntimo conflito, e somos assim libertos da escravidão dos nossos desejos.

“Digo, porém: Andai pelo Espírito, e não haveis de cumprir a cobiça da carne. Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes se opõem um ao outro, para que não façais o que quereis. Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei.” (Gálatas 5:16-18)

Assim, se morremos em Cristo, não precisamos mais da embriaguez dos sentidos, porque esta existe para aquele que não conhece a lei de Deus, e por isso está aflito, e para perecer:

“Não é dos reis, ó Lemuel, não é dos reis beber vinho, nem dos príncipes desejar bebida forte; para que não bebam, e se esqueçam da lei, e pervertam o direito de quem anda aflito. Dai bebida forte ao que está para perecer, e o vinho ao que está em amargura de espírito.” (Provérbios 31:4-6)

Mas cabe a nós nos enchermos do Espírito, o qual jamais produz estupor ou embriaguez, mas apenas maior clareza; que jamais perde o controle, que jamais nos desorienta ou confunde, ainda que não nos livre da dor; que de fato nos faz entender todas as coisas na nossa mente, que dá pleno equilíbrio em paz e alegria nas nossas emoções, e que exercita nossa vontade na vontade de Deus e do Seu Cristo.

“…porque ele será grande diante do Senhor; não beberá vinho, nem bebida forte; e será cheio do Espírito Santo já desde o ventre de sua mãe…” (Lucas 1:15)

“E tomando um cálice, rendeu graças e deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do pacto, que por muitos é derramado. Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da videira, até aquele dia em que o beber, novo, no reino de Deus.” (Marcos 14:23-25)

“E ofereciam-lhe vinho misturado com mirra; mas ele não o tomou. Então o crucificaram, e repartiram entre si as vestes dele, lançando sortes sobre elas para ver o que cada um levaria.” (Marcos 15:23-24)