Arquivo para 20 de June de 2005

Vermelho

Monday, 20 de June de 2005

“Não olhes para o vinho quando se mostra vermelho, quando resplandece no copo e se escoa suavemente. No seu fim morderá como a cobra, e como o basilisco picará.” (Provérbios 23:31-32)

O vermelho é uma cor normalmente associada ao lado “passional” humano. Essa cor é usada como sinal de alerta ou perigo, até porque atrai os olhos; e se é uma cor ligada à violência ou ao perigo, também é freqüentemente ligada às emoções mais fortes e primais do ser humano. De fato, o sangue humano é vermelho; e isso, em grande parte, é o que nos leva a perceber a cor vermelha desse modo.

Na Bíblia, a cor vermelha está normalmente ligada ao pecado, já que este é uma força primal no homem decaído e pecador. A primeira ocorrência do vermelho na Bíblia está em Gênesis, num contexto bem interessante:

“Jacó havia feito um guisado, quando Esaú chegou do campo, muito cansado; e disse Esaú a Jacó: Deixa-me, peço-te, comer desse guisado vermelho, porque estou muito cansado. Por isso se chamou Edom. Respondeu Jacó: Vende-me primeiro o teu direito de primogenitura. Então replicou Esaú: Eis que estou a ponto de morrer; logo, para que me servirá o direito de primogenitura? Ao que disse Jacó: Jura-me primeiro. Jurou-lhe, pois; e vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó. Jacó deu a Esaú pão e o guisado e lentilhas; e ele comeu e bebeu; e, levantando-se, seguiu seu caminho. Assim desprezou Esaú o seu direito de primogenitura.” (Gênesis 25:29-34)

“…e ninguém seja devasso, ou profano como Esaú, que por uma simples refeição vendeu o seu direito de primogenitura. Porque bem sabeis que, querendo ele ainda depois herdar a bênção, foi rejeitado; porque não achou lugar de arrependimento, ainda que o buscou diligentemente com lágrimas.” (Hebreus 12:16-17)

Assim, vemos na primeira ocorrência da cor vermelha na Bíblia o prenúncio de uma condição terrível do homem: a sua luta cotidiana contra o próprio desejo, contra a própria tendência pecaminosa, a luta entre a razão e a emoção, entre a consciência e o instinto; a raiz do desespero humano, como vemos no primeiro homem a ver o vermelho do sangue do seu semelhante:

“Então o Senhor perguntou a Caim: Por que te iraste? e por que está descaído o teu semblante? Porventura se procederes bem, não se há de levantar o teu semblante? E se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; mas sobre ele tu deves dominar. Falou Caim com o seu irmão Abel. E, estando eles no campo, Caim se levantou contra o seu irmão Abel, e o matou. Perguntou, pois, o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Respondeu ele: Não sei; sou eu o guarda do meu irmão? E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão está clamando a mim desde a terra.” (Gênesis 4:6-10)

O desespero humano está em tentar dominar seu desejo, sabendo que este, caso não seja dominado, leva à destruição daquele que o possui — como o fez com Caim. Assim, não bastasse a triste situação do homem quanto ao pecado, ainda há esse desejo instintivo que leva o homem contra si mesmo, mas acima de tudo, contra a lei de Deus:

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7:18-24)

Como podemos ser livres de tal condição? Se o vermelho evoca nossos desejos mais primitivos, presentes na nossa natureza e no nosso próprio sangue, ele também nos fala da solução de Deus, no sangue de um homem livre do pecado, verdadeiramente justo e puro; um homem que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado.

“Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais outrora andastes, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos de desobediência, entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus, para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, pela sua bondade para conosco em Cristo Jesus.” (Efésios 2:1-7)

Assim, acontece algo que parece impossível; pois se o vermelho tipifica o pecado em nós, ao sermos lavados pelo vermelho sangue de Cristo, nos tornamos brancos como a neve; por mais que os dois sangues sejam igualmente vermelhos, pelo sangue de Cristo somos lavados, visto que em nosso sangue habita o pecado e a morte, e no sangue de Cristo a vida; no nosso sangue o desejo do pecado, mas no sangue de Cristo, a vontade de Deus.

“Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados são como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que são vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã.” (Isaías 1:18)

Demos, pois graças a Deus por Cristo; porque, se de fato não podemos dominar sobre o nosso desejo, há um que pode; se não podemos negar nossa carne e sangue, há um que já o fez por nós; e assim, pelo sangue de Cristo, ainda que vermelho como o nosso, somos libertos do nosso desejo, do nosso pecado, e de nós mesmos, a fim de vivermos para Deus, e cumprirmos Sua vontade.

“E, despindo-o, vestiram-lhe um manto escarlate; e tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e na mão direita uma cana, e ajoelhando-se diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, rei dos judeus!” (Mateus 27:28-29)

“Quem é este, que vem de Edom, de Bozra, com vestiduras tintas de escarlate? Este que é glorioso no seu traje, que marcha na plenitude da sua força? Sou eu, que falo em justiça, poderoso para salvar.” (Isaías 63:1)

“Respondi-lhe: Meu Senhor, tu sabes. Disse-me ele: Estes são os que vêm da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro. Por isso estão diante do trono de Deus, e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que está assentado sobre o trono estenderá o seu tabernáculo sobre eles. Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede; nem cairá sobre eles o sol, nem calor algum; porque o Cordeiro que está no meio, diante do trono, os apascentará e os conduzirá às fontes das águas da vida; e Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.” (Apocalipse 7:14-17)

“E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até a morte.” (Apocalipse 12:11)