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“Não repareis em eu ser morena…”

Tuesday, 14 de June de 2005

“Não repareis em eu ser morena, porque o sol crestou-me a tez; os filhos de minha mãe indignaram-se contra mim, e me puseram por guarda de vinhas; a minha vinha, porém, não guardei.” (Cantares 1:6)

O livro de Cantares é um poema belíssimo, um livro que fala do amor de um homem por uma mulher, mas também do relacionamento entre Deus e Seu povo, e entre Cristo e a igreja. O texto acima é dito pela amada do livro, e tem para nós um sentido interessante, que nasce de uma pergunta: o que havia de ruim em ser morena, em ter sido queimada pelo sol? Não há, até onde sei, nem um só outro lugar da Bíblia onde ser moreno seja algo negativo. Por que, então, essa observação tão singular? O que isso significa?

Veremos que, de fato, o problema não é ser morena, mas ter sido queimada pelo sol. Se considerarmos isso como uma metáfora, que sol seria esse?

“Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol; e eis que tudo era vaidade e desejo vão.” (Eclesiastes 1:14)

Sim, de fato, começamos a entender o que há de perda no que a amada fala; porque ter sido queimada pelo sol significa que ela permaneceu por muito tempo debaixo do sol; e se tudo debaixo do sol é vaidade e desejo vão, então o fato de estar morena revela que ela viveu debaixo do sol, ou seja, que viveu em vaidade.

Se entendemos o livro de Cantares, nesse contexto, como uma metáfora do relacionamento de Cristo com a igreja, então podemos ver de fato algo muito importante: que não é agradável ou aceitável que passemos tempo debaixo do sol, em vaidade. Porque a verdade é que o Senhor conhece as nossas obras, e sabe se as fazemos em vaidade ou não:

“Conheço as tuas obras, e o teu trabalho…” (Apocalipse 2:2a)

Quais tem sido as nossas obras, como igreja? Temos vivido debaixo do sol, com vaidade, com sabedoria de palavras, e coisas que em nada glorificam a Deus, e que até o envergonham — ou temos feito as obras de Deus em amor e verdade?

“Se morrestes com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos sujeitais ainda a ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não proves, não manuseies (as quais coisas todas hão de perecer pelo uso), segundo os preceitos e doutrinas dos homens? As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria em culto voluntário, humildade fingida, e severidade para com o corpo, mas não têm valor algum no combate contra a satisfação da carne.” (Colossenses 2:20-23)

O texto acima fala da vaidade abaixo do sol, de rudimentos, aparência, esforço vão, obras humanas; e isso com aparência de sabedoria e culto, mas absolutamente sem valor perante Deus. Mas, graças a Deus, Paulo continua:

“Se, pois, fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; porque morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.” (Colossenses 3:1-3)

Se buscarmos as coisas que são de cima, não estaremos debaixo do sol, mas junto a ele; estaremos com o nosso amado, o único que é perfeitamente alvo, pois jamais foi queimado pelo sol da vaidade:

“E voltei-me para ver quem falava comigo. E, ao voltar-me, vi sete candeeiros de ouro, e no meio dos candeeiros um semelhante a filho de homem, vestido de uma roupa talar, e cingido à altura do peito com um cinto de ouro; e a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve; e os seus olhos como chama de fogo; e os seus pés, semelhantes a latão reluzente que fora refinado numa fornalha; e a sua voz como a voz de muitas águas. Tinha ele na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois gumes; e o seu rosto era como o sol, quando resplandece na sua força. Quando o vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último, e o que vivo; fui morto, mas eis aqui estou vivo pelos séculos dos séculos; e tenho as chaves da morte e do hades.” (Apocalipse 1:12-18)

E assim não seremos mais queimados pela vaidade, mas salvos pelas obras daquele que nos amou, e a si mesmo se entregou por nós, de modo que fôssemos feitos alvos como ele:

“Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve.” (Salmos 51:7)

Aquele que, apesar de estarmos queimados pelo sol da vaidade, ainda assim nos amou, morreu por nós, e finalmente virá nos buscar.

“Venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa.” (Apocalipse 3:11)

“Teve Salomão uma vinha em Baal-Hamom; arrendou essa vinha a uns guardas; e cada um lhe devia trazer pelo seu fruto mil peças de prata. A minha vinha que me pertence está diante de mim; tu, ó Salomão, terás as mil peças de prata, e os que guardam o fruto terão duzentas. Ó tu, que habitas nos jardins, os companheiros estão atentos para ouvir a tua voz; faze-me, pois, também ouvi-la: Vem depressa, amado meu, e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho da gazela sobre os montes dos aromas.” (Cantares 8:11-14)