Arquivo para 12 de June de 2005

Errando o alvo

Sunday, 12 de June de 2005

“Respondeu a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais.” (Gênesis 3:2-3)

Esse verso se encontra no relato do pecado original, em Gênesis. Deus havia dado uma ordem ao homem e à mulher que havia criado; mas a mulher foi tentada pela serpente, e acabou por comer do fruto da árvore proibida (do qual comeu também o homem em seguida), de forma que desobedeceram a Deus, nisto trazendo para o mundo o pecado e a morte. Mas há algo interessante no texto acima, que precisamos entender para entender o conceito bíblico de pecado, e como este se forma em nós.

Vejamos qual foi a ordem que Deus deu:

“Ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim podes comer livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” (Gênesis 2:16-17)

Observando a ordem que Deus deu, e o que a mulher respondeu à serpente, podemos ver algumas diferenças. A primeira diferença é que Deus falou que se podia comer de toda árvore, mas a mulher mencionou o fruto das árvores. Deus havia falado de um todo, de natureza, enquanto que a mulher focou em uma parte, no que a natureza produzia de imediatamente comestível; Deus falou de essência, mas a mulher falava de conseqüência.

A segunda diferença notável é que a mulher diz que a árvore da qual não se podia comer estava no meio do jardim, enquanto que Deus a chama pela sua essência: a árvore do conhecimento do bem e do mal. Seria um erro inocente, se não fosse um detalhe que faz toda a diferença:

“E o Senhor Deus fez brotar da terra toda qualidade de árvores agradáveis à vista e boas para comida, bem como a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal.” (Gênesis 2:9)

Na visão da mulher, a árvore no meio do jardim era a árvore do conhecimento do bem e do mal; mas na visão de Deus, era a árvore da vida. O centro da mulher não era o centro de Deus; como a visão dela se desviara da árvore para o seu fruto, agora se desviara de uma árvore para outra. E qual o primeiro resultado disso? O terceiro erro da mulher, a saber, adicionar suas próprias palavras ao que Deus havia dito: “nem nele tocareis”.

A palavra traduzida na Bíblia como pecado significa, em seu sentido original, “errar o alvo”. E vemos isso claramente no processo do pecado original. O centro do jardim, para Deus, era a árvore da vida, mas o da mulher a árvore do conhecimento do bem e do mal; o centro da árvore para Deus era toda a árvore, e para a mulher era o fruto. A mulher começou a errar o alvo já na sua resposta à serpente, de forma que o que se seguiu não foi nada mais que a consequência de um processo que já havia começado:

“Então, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu.” (Gênesis 3:6)

Essa frase nos fala da concretização plena do pecado original, que tipifica a concretização de qualquer tipo de pecado:

“Cada um, porém, é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência; então a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.” (Tiago 1:14-15)

“Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não vem do Pai, mas sim do mundo.” (I João 2:16)

A árvore era boa para comer, de forma que atendia à concupiscência da carne; agradável aos olhos, atendendo à concupiscência dos olhos; e desejável para dar entendimento, de forma que atendia também à soberba da vida. Todo pecado vai atender a pelo menos uma dessas cobiças, de forma que o pecado original de fato tipifica toda sorte de pecado, e mostra para nós o começo e significado essencial do que é o pecado: errar o alvo de Deus.

Qual, então, deve ser nosso alvo, para que não erremos? Ninguém mais que a árvore da vida, figura daquele que é capaz de verdadeiramente nos dar vida eterna:

“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; pois neste, Deus, o Pai, imprimiu o seu selo.” (João 6:27)

O pecado não é nada mais do que não acertar o alvo de Deus, não buscá-lo, não fitá-lo. Assim, fitemos firmemente nosso alvo, aquele que morreu por nós e por Deus foi ressuscitado, para que, pela graça, fôssemos salvos da morte e do pecado; e prossigamos para o alvo, certos de que um dia compartilharemos com Deus, não da árvore do conhecimento do bem e do mal, mas da árvore da vida.

“Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo pelo prêmio da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus. Pelo que todos quantos somos perfeitos tenhamos este sentimento; e, se sentis alguma coisa de modo diverso, Deus também vo-lo revelará.” (Filipenses 3:13-15)

“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus.” (Apocalipse 2:7)