Arquivo para 10 de June de 2005

O temor do Senhor

Friday, 10 de June de 2005

“Servi ao Senhor com temor, e regozijai-vos com tremor.” (Salmos 2:11)

O que significa a expressão “temor do Senhor”? Qual a sua importância para nós?

No português coloquial, cotidiano, temor é um termo pouco usado. Mas ele é definido no dicionário como “ato ou efeito de temer; receio bem fundado de um mal ou perigo que pode sobrevir no futuro; medo acompanhado de respeito”. Veremos que o temor de Deus é, de fato, todas essas coisas. Vejamos, por exemplo, a reação de Moisés ao testemunhar a presença de Deus no Sinai:

“E tão terrível era a visão, que Moisés disse: Estou todo aterrorizado e trêmulo.” (Hebreus 12:21)

Moisés foi um dos maiores profetas da Bíblia. Ele conheceu bem a Deus, desde o dia em que foi chamado para tirar o povo de Israel do Egito, até o dia em que morreu; ainda assim, ao subir ao monte de Deus para falar com Ele, esse é o testemunho de Moisés: ele estava aterrorizado.

A palavra usada no grego para “temor” é phobos, de onde vem o termo “fobia”. Só por aí já podemos perceber como a idéia de temor está, sim, vinculada ao medo. Como, então, compatibilizar o temor do Senhor com o texto abaixo?

“No amor não há medo, antes o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor.” (I João 4:18)

Como podemos temer ao Senhor, se o perfeito amor lança fora o medo, e tal amor deve ser achado em nós? O que significa para nós o temor do Senhor, então?

Permitam-me usar uma experiência pessoal para exemplificar o que é o temor. Eu servi no Exército Brasileiro, e me lembro claramente do primeiro dia em que entrei no quartel; ao passar pela entrada, encontrei um amigo que estava servindo naquele ano. Ele segurava um fuzil pelo cano, e quando o colocou ao lado do corpo, por um breve momento vi que o cano estava voltado na minha direção. Lembro da sensação de medo que tive. Um projétil de um fuzil daqueles seria mais que suficiente pra me matar.

Um ano depois, eu estava na guarda daquela mesma entrada, com o fuzil ao meu lado. Agora eu sabia que, naquele dia, o fuzil estava descarregado e travado; não havia risco pra mim, ainda que o fuzil tivesse, em si, o poder de me matar. Agora eu tinha o fuzil ao meu lado, e ele era minha proteção; mas eu tinha plena consciência do poder que ele tinha, e por isso o tratava com o devido cuidado. Mesmo desarmado e travado, ele ainda tinha potencialmente o poder de me matar — ou de me salvar.

Ainda que numa escala diferente, o mesmo acontece com Deus. Nosso Deus é o criador do Universo, um Deus todo-poderoso e todo-suficiente, onisciente e justo; um Deus santo e eterno. Deus falou, e o Universo foi criado; e o poder que Ele tem de criar também o habilita a destruir (o que um dia Ele fará). Aquele monte em que Deus falou com Moisés tremia e fumegava diante da presença de Deus; se um monte era afetado assim pela presença de Deus, quanto mais um homem? Nosso Deus é um fogo consumidor, um Deus vingador, que odeia o pecado. Sabermos do poder imenso que Deus tem, e da sua santidade e justiça, não pode deixar de provocar em nós o temor devido. Se um fuzil o fez comigo, o que dizer dAquele que, além de matar o corpo, pode lançar a alma no inferno?

“E não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.” (Mateus 10:28)

Ainda que em Cristo estejamos livres da ira de Deus, e da condenação e morte do pecado, Deus é o mesmo; Seu poder e natureza são os mesmos; se achamos nEle Seu amor e misericórdia, isso não muda o fato de que Ele é o mesmo Deus poderoso e santo, e de que de outro modo, sem o sacrifício de Cristo por nós, nos aniquilaria.

“Está bem; pela sua incredulidade foram quebrados, e tu pela tua fé estás firme. Não te ensoberbeças, mas teme; porque, se Deus não poupou os ramos naturais, não te poupará a ti. Considera pois a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; para contigo, a bondade de Deus, se permaneceres nessa bondade; do contrário também tu serás cortado.” (Romanos 11:20-22)

O fato de agora sermos filhos de Deus não muda o temor que devemos ter, porque, ainda que filhos, somos também servos; e Deus ainda tem poder sobre a vida e a morte:

“O filho honra o pai, e o servo ao seu amo; se eu, pois, sou pai, onde está a minha honra? e se eu sou amo, onde está o temor de mim? diz o Senhor dos exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que temos nós desprezado o teu nome?” (Malaquias 1:6)

Assim, como conciliar o temor com o amor? Como ter temor sem ter medo do castigo? O começo da resposta é: devemos ter sempre temor no que diz respeito a nossas próprias obras, e cabe a nós esperar no amor de Deus, nas Suas obras em nós e através de nós.

“De sorte que, meus amados, do modo como sempre obedecestes, não como na minha presença somente, mas muito mais agora na minha ausência, efetuai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.” (Filipenses 2:12-13)

“Todas as vossas obras sejam feitas em amor.” (I Coríntios 16:14)

Assim, precisamos do temor para que este nos previna de fazermos nossas obras; e precisamos do amor para que neste se revelem as obras de Deus. Se todas as nossas obras forem feitas em amor, não teremos as obras do medo; mas o temor é necessário para que não façamos nossas obras, e o amor necessário para que Deus faça as obras dEle em nós. Assim conciliamos o temor com o amor; o temor produz o que não fazemos (de nós mesmos), lançando fora o castigo, e com ele o medo; e o amor produz em nós as obras de Deus, que Ele faz em nós, pela graça e poder dAquele que tem poder sobre a vida e a morte, nosso Pai, mas, acima de tudo, nosso Senhor, e nosso Deus.

“Filho meu, se aceitares as minhas palavras, e entesourares contigo os meus mandamentos, para fazeres atento à sabedoria o teu ouvido, e para inclinares o teu coração ao entendimento; sim, se clamares por discernimento, e por entendimento alçares a tua voz; se o buscares como a prata e o procurares como a tesouros escondidos; então entenderás o temor do Senhor, e acharás o conhecimento de Deus.” (Provérbios 2:1-5)

“E tão terrível era a visão, que Moisés disse: Estou todo aterrorizado e trêmulo. (…) Pelo que, recebendo nós um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e temor; pois o nosso Deus é um fogo consumidor.” (Hebreus 12:21,28-29)