Arquivo para 9 de June de 2005

Cinco pães e dois peixinhos

Thursday, 9 de June de 2005

“Ora, a páscoa, a festa dos judeus, estava próxima. Então Jesus, levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão vinha ter com ele, disse a Felipe: Onde compraremos pão, para estes comerem? Mas dizia isto para o experimentar; pois ele bem sabia o que ia fazer. Respondeu-lhe Felipe: Duzentos denários de pão não lhes bastam, para que cada um receba um pouco. Ao que lhe disse um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro: Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isto para tantos? Disse Jesus: Fazei reclinar-se o povo. Ora, naquele lugar havia muita relva. Reclinaram-se aí, pois, os homens em número de quase cinco mil. Jesus, então, tomou os pães e, havendo dado graças, repartiu-os pelos que estavam reclinados; e de igual modo os peixes, quanto eles queriam. E quando estavam saciados, disse aos seus discípulos: Recolhei os pedaços que sobejaram, para que nada se perca. Recolheram-nos, pois e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que sobejaram aos que haviam comido. Vendo, pois, aqueles homens o sinal que Jesus operara, diziam: este é verdadeiramente o profeta que havia de vir ao mundo. Percebendo, pois, Jesus que estavam prestes a vir e levá-lo à força para o fazerem rei, tornou a retirar-se para o monte, ele sozinho.” (João 6:4-15)

A primeira multiplicação dos pães é um dos milagres mais conhecidos dos evangelhos. A partir de apenas cinco pães e dois peixes, uma multidão com cerca de cinco mil homens (mais mulheres e crianças) foi alimentada, e ainda sobraram doze cestos cheios. Foi de fato um milagre extraordinário, mas aí cabe uma pergunta: porque exatamente cinco pães e dois peixes? E porque doze cestos do que sobejou?

No Velho Testamento, temos várias pessoas que, ao menos em determinados momentos de suas vidas, são figuras do Messias, concretizado em Jesus Cristo. Os cinco pães e dois peixes, bem como os doze cestos, são na verdade uma referência a uma dessas figuras — a saber, José do Egito, um dos filhos de Jacó. Mas em que contexto José seria uma figura de Cristo? E o que tem isso a ver com a primeira multiplicação dos pães?

Em Gênesis 41, vemos que Faraó teve dois sonhos, que foram depois interpretados por José como o mesmo sonho: no primeiro, sete vacas magras devoravam sete vacas gordas, e permaneciam magras; no segundo, sete espigas secas e queimadas do vento oriental comiam sete espigas cheias e boas. José então explicou ao Faraó, inspirado por Deus, que ambos os sonhos significavam sete anos de fartura, seguidos por sete anos de fome tal que faria com que se esquecessem os anos de fartura de antes. José então sugeriu que se guardasse um quinto da safra de trigo anual durante os tempos de fartura, para servirem de provisão nos anos de fome; e por isso foi colocado por Faraó como administrador do Egito.

O que acontece é que a fome não atingiu apenas o Egito, mas todas as terras ao redor, e os onze irmãos de José foram ao Egito para escapar da fome, bem como o seu pai - doze pessoas ao todo. Quando José finalmente se revela aos seus irmãos, eis o que ele diz:

“Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos aborreçais por me haverdes vendido para cá; porque para preservar vida é que Deus me enviou adiante de vós. Porque já houve dois anos de fome na terra, e ainda restam cinco anos em que não haverá lavoura nem sega. Deus enviou-me adiante de vós, para conservar-vos descendência na terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento. Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como governador sobre toda a terra do Egito.” (Gênesis 45:5-8)

Agora começamos a ver as semelhanças entre a multiplicação dos pães e a história de José. Temos naquela cinco pães e dois peixes, e nesta, cinco anos de fome por vir e dois anos de fome já passados; naquela, doze cestos cheios, e nesta, doze almas salvas da fome pela intervenção de Deus através de José; e em ambas um grande livramento — da fome e da morte.

Cristo mostrou nesse milagre que era o filho do Deus de José; um Deus que tem domínio sobre a terra, e que é poderoso para trazer fome ou fartura. Mais que isso, Cristo, como José, foi vendido e dado como morto; e, como José, foi depois achado vivo, e achado poderoso para dar um grande livramento. Cristo, como José, foi capaz de prover fartura em meio à fome, e vida em meio à morte.

Mas Cristo faz de fato muito mais, porque ele vai ainda além do sonho de Faraó:

“Mas, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória.” (I Coríntios 15:54)

Em Cristo, as vacas magras são tragadas pelas saudáveis; em Cristo, as espigas miúdas são tragadas pelas cheias; em Cristo, a morte é tragada pela vitória. Cristo representa tudo aquilo que é impossível ao homem, mas possível a Deus; aquilo que era impossível a Faraó, ou mesmo a José, mas que só Deus poderia fazer. Se o sonho de Faraó foi a providência divina para prover livramento ao povo de Israel, levando-o para o Egito, também foi o juízo de Deus sobre toda aquele região; e esse mesmo Egito foi depois a terra da escravidão do povo de Israel, prefigurando assim a lei; mas Cristo nos livrou da escravidão da lei, para a liberdade da sua graça:

“Sobreveio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça; para que, assim como o pecado veio a reinar na morte, assim também viesse a reinar a graça pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.” (Romanos 5:20-21)

“Para a liberdade Cristo nos libertou; permanecei, pois, firmes e não vos dobreis novamente a um jugo de escravidão.” (Gálatas 5:1)

Assim, naquele milagre, Cristo se revelou o filho do Deus de José, o libertador e redentor; naqueles cinco pães e dois peixinhos, e nos doze cestos cheios que se seguem, reconhecemos de fato o verdadeiro pão que dá vida ao mundo.

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que me buscais, não porque vistes sinais, mas porque comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; pois neste, Deus, o Pai, imprimiu o seu selo. Perguntaram-lhe, pois: Que havemos de fazer para praticarmos as obras de Deus? Jesus lhes respondeu: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou. Perguntaram-lhe, então: Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos e te creiamos? Que operas tu? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Do céu deu-lhes pão a comer. Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. Disseram-lhe, pois: Senhor, dá-nos sempre desse pão. Declarou-lhes Jesus. Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim, de modo algum terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede.” (João 6:26-35)