O vento oriental

“Então Moisés estendeu a mão sobre o mar; e o Senhor fez retirar o mar por um forte vento oriental toda aquela noite, e fez do mar terra seca, e as águas foram divididas.” (Êxodo 14:21)

Na Bíblia, no Velho Testamento, há várias situações em que vemos menções ao vento oriental; esse vento é uma figura freqüente da ação de Deus na terra, uma figura de seu poder irresistível, e de seu controle sobre a criação. Mas é curioso que essa expressão não ocorra no Novo Testamento; e, mesmo no Velho, o que exatamente significa o vento oriental? Como se não bastassem tais perguntas, como conciliar o vento oriental com os textos abaixo?

“Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da que está grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas.” (Eclesiastes 11:5)

“O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.” (João 3:8)

Ora, se o vento é oriental, sabemos de onde vem, e pra onde vai. O que significa essa aparente contradição?

A primeira coisa que temos que entender é que o vento tem o seu ciclo, estabelecido por Deus:

“Fez soprar nos céus o vento do oriente, e pelo seu poder trouxe o vento sul.” (Salmos 78:26)

“O vento vai para o sul, e faz o seu giro vai para o norte; volve-se e revolve-se na sua carreira, e retoma os seus circuitos.” (Eclesiastes 1:6)

Podemos ver que a idéia de tempo está intimamente ligada ao vento, mesmo ao vento oriental, no primeiro texto deste estudo. Muitas pessoas pensam que Moisés estendeu a mão sobre o Mar Vermelho e este imediatamente se abriu; mas a verdade é que um vento oriental soprou por toda a noite, e as águas se encontraram divididas pela manhã. Assim, não só houve um vento, mas o que ele fez levou um tempo - no caso, toda a noite. E o vento apenas dividiu o mar; o que o vento afetou foram as águas, e nada mais.

Assim podemos começar a entender qual a diferença (e a semelhança) entre os dois ventos. O vento, segundo a visão de Deus, que estabeleceu seu ciclo, tem sempre uma direção certa e determinada, mas que obedece ao tempo estabelecido por Deus; desconhecemos a direção do vento porque não sabemos seu tempo de mudar de direção e continuar seu ciclo. Assim, a diferença entre sabermos a direção do vento e não sabermos não está relacionado tanto ao “de onde vem” ou ao “para onde vai”, quanto ao “quando” ele muda de direção.

Assim, o vento oriental é uma figura do tempo determinado de Deus, e o vento indefinido uma figura da sua soberania; Deus sempre sabe para onde o vento sopra, mas nós, só enquanto o sentimos, já que nem mesmo o vemos; como diz o texto, só quando ouvimos a sua voz. Onde vemos os dois conceitos se unirem? Onde o tempo de Deus encontra a soberania de Deus?

“E aqueles homens se maravilharam, dizendo: Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mateus 8:27)

“Mas, sentindo o vento, teve medo; e, começando a submergir, clamou: Senhor, salva-me. Imediatamente estendeu Jesus a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? E logo que subiram para o barco, o vento cessou.” (Mateus 14:30-32)

Em Cristo vemos o encontro do tempo de Deus com sua soberania plena; em Cristo vemos a verdade revelada de Deus. Sabemos exatamente de onde Cristo veio, e para onde Ele se dirigia:

“E para onde eu vou vós conheceis o caminho. Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho? Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14:4-6)

E sabemos que foi de fato no tempo determinado por Deus:

“…doutra forma, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.” (Hebreus 9:26)

Por que todo aquele que é nascido do Espírito é como o vento aparentemente sem direção definida? Porque todo que é nascido do Espírito está sujeito à soberania de Deus, à determinação do tempo de Deus, segundo a Sua vontade. Contudo, não permanecemos na ignorância:

“Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer.” (João 15:14-15)

Assim perceberemos que, quando somos nascidos do Espírito, e somos como o vento, sabemos de onde vem, e pra onde vai, como sabemos que o vento oriental vem do Leste, e se dirige para o Oeste. Quem não conhece o ciclo do vento e Aquele que o controla se confunde facilmente quando ele muda de direção, mas se guardamos os Seus mandamentos, e se conhecemos a palavra de Deus revelada em Cristo, reconheceremos o Senhor em todos os nossos caminhos; e ao invés de corrermos atrás do vento, seremos levados por ele, de onde o Senhor quiser, para onde o Senhor quiser, quando o Senhor quiser; e podemos estar seguros de que seu vento tem sempre um propósito definido, como o vento oriental o tinha, pois vinha de onde nasce o sol:

“E agora o homem não pode olhar para o sol, que resplandece no céu quando o vento, tendo passado, o deixa limpo.” (Jó 37:21)

“Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça…” (Malaquias 4:2a)

“Onde está o caminho para o lugar em que se reparte a luz, e se espalha o vento oriental sobre a terra?” (Jó 38:24)

“Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Segundo a sua própria vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas.” (Tiago 1:17-18)

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