Arquivo para 5 de June de 2005

Tomando posse

Sunday, 5 de June de 2005

“Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando houverdes passado o Jordão para a terra de Canaã, lançareis fora todos os habitantes da terra de diante de vós, e destruireis todas as suas pedras em que há figuras; também destruireis todas as suas imagens de fundição, e desfareis todos os seus altos; e tomareis a terra em possessão, e nela habitareis; porquanto a vós vos tenho dado esta terra para a possuirdes.” (Números 33:51-53)

Hoje é comum escutar no meio evangélico a expressão “tomar posse”, e é comum vê-la usada como uma expressão de que tomamos parte ativa na apropriação das promessas de Deus — que Ele prometeu, e cabe a nós agir pela fé sobre essas promessas, e concretizá-las em nossas vidas. Mas será que a Bíblia suporta essa interpretação?

O texto acima nos mostra a promessa de Deus, feita ao povo de Israel, de que este possuiria a terra que Deus havia prometido a seus pais. Há várias coisas interessantes nessa promessa, coisas que precisamos observar. A primeira é o “quando”. Deus tem um tempo pra todas as coisas; suas promessas também têm um tempo para se cumprir, um tempo determinado por Deus, não por nós. Em Josué 1:1-11, vemos o momento em que o tempo de Deus se cumpriu, que foi quando Moisés morreu; esse foi o tempo determinado por Deus, e vemos que quando o povo tentou forçar o tempo de Deus, foi desbaratado, pois o Senhor não foi com eles — visto que, apesar da promessa, agiram em desobediência:

“Eles, pois, levantando-se de manhã cedo, subiram ao cume do monte, e disseram: Eis-nos aqui; subiremos ao lugar que o Senhor tem dito; porquanto havemos pecado. Respondeu Moisés: Ora, por que transgredis o mandado do Senhor, visto que isso não prosperará? Não subais, pois o Senhor não está no meio de vós; para que não sejais feridos diante dos vossos inimigos. Porque os amalequitas e os cananeus estão ali diante da vossa face, e caireis à espada; pois, porquanto vos desviastes do Senhor, o Senhor não estará convosco. Contudo, temerariamente subiram eles ao cume do monte; mas a arca do pacto do Senhor, e Moisés, não se apartaram do arraial. Então desceram os amalequitas e os cananeus, que habitavam na montanha, e os feriram, derrotando-os até Horma.” (Números 14:40-45)

Assim, a primeira lição que há na promessa de Deus é que Deus tem um tempo Seu para cumprir suas promessas, um tempo que somos incapazes de mudar.

Há uma segunda lição importante nessa promessa de Deus: é certo que o povo entraria nessa terra, mas com eles entraria o Senhor; daí o mandamento de que fossem destruídos todos os ídolos, um eco dos mandamentos de Deus em Êxodo, que diz:

“Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso…” (Êxodo 20:2-5a)

Assim, não bastava que o povo entrasse na terra no tempo de Deus, mas que entrasse na terra com Ele. A terra era uma herança de Deus para o Seu povo, mas tão somente porque era o Seu povo; era um lugar em que o povo deveria habitar, mas antes de tudo, um lugar em que Deus iria habitar com Seu povo.

“Não contaminareis, pois, a terra em que haveis de habitar, no meio da qual eu também habitarei; pois eu, o Senhor, habito no meio dos filhos de Israel.” (Números 35:34)

A terceira lição que vemos nessa promessa é que o esforço do povo de Israel tinha pouco a ver com o cumprimento da promessa, pois o Senhor diz que havia dado a terra a eles. Qual esforço há em aceitar um presente? Só há três coisas que devemos fazer ao aceitarmos uma dádiva: aceitá-la com alegria, agradecer por ela com humildade, e dar-lhe o devido valor. No caso de Deus, há mais uma coisa a ser feita, que não tem tanto a ver com a dádiva, mas com Aquele que a concede: obedecer. E em obediência o povo entraria na terra, no tempo de Deus, com o Senhor, para desfrutar da Sua graça. Vemos isso claramente no discurso de Josué logo antes de sua morte:

“E o Senhor vosso Deus as impelirá, e as expulsará de diante de vós; e vós possuireis a sua terra, como vos disse o Senhor vosso Deus. Esforçai-vos, pois, para guardar e cumprir tudo quanto está escrito no livro da lei de Moisés, para que dela não vos desvieis nem para a direita nem para a esquerda; para que não vos mistureis com estas nações que ainda restam entre vós; e dos nomes de seus deuses não façais menção, nem por eles façais jurar, nem os sirvais, nem a eles vos inclineis. Mas ao Senhor vosso Deus vos apegareis, como fizeste até o dia de hoje; pois o Senhor expulsou de diante de vós grandes e fortes nações, e, até o dia de hoje, ninguém vos tem podido resistir. Um só homem dentre vós persegue a mil, pois o Senhor vosso Deus é quem peleja por vós, como já vos disse. Portanto, cuidai diligentemente de amar ao Senhor vosso Deus.” (Josué 23:5-11)

Se alguém fez algo, foi o Senhor; se havia algo a ser feito pelo povo, era obedecer à palavra do Senhor, e à essência da Sua promessa. Se Deus havia dito que todo lugar que o povo de Israel pisasse seria deles, Ele mesmo havia estabelecido os limites de aplicação dessa promessa; se mandou que atravessassem o Jordão, Ele mesmo foi adiante deles; se aparentemente Israel expulsou os povos daquela terra, quem de fato o fez foi o Senhor. Assim, não dependeu do esforço de Israel o cumprimento da promessa, mas simplesmente do Senhor; tudo que se requeria do povo de Israel era sua obediência em fé ao seu Deus.

Então, será que de fato “tomamos posse” das promessas de Deus, como se entende hoje? Não, não devemos tomar posse; devemos simplesmente obedecer ao que Deus manda, quando Ele manda, e como Ele manda. Não devemos forçar nosso tempo, mas aceitar o tempo de Deus. Não devemos ver na terra possuída o nosso prêmio, mas vê-lo na presença de Deus entre nós. E, finalmente, não podemos considerar como conquistado por nós algo que de fato foi dado por Deus. O que nos cabe, então, é crer, esperar, e amar ao nosso Deus; porque até a terra possuída passará, mas três coisas permanecerão: a fé, a esperança e o amor. Nessas três coisas encontramos mais que as promessas de Deus, porque nelas vivemos pela Promessa de Deus, Seu filho Jesus Cristo, que tudo fez por nós, para que nada mais fizéssemos a não ser permanecer nele.

“Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (João 15:4-5)

Assim, compreendamos essa verdade: que na Sua graça, Deus cumpre cada uma das suas promessas, no Seu tempo, segundo a Sua palavra, pelo Seu amor; e que a nós nada mais cabe que obedecer e zelar com obediência e gratidão para que tenhamos sempre em perspectiva que, se somos dEle, então qualquer coisa que Ele nos dê continua sendo dEle; e assim desfrutaremos da Sua graça, e acharemos nEle nossa única herança.

“…antes em tudo recomendando-nos como ministros de Deus; em muita perseverança, em aflições, em necessidades, em angústias, em açoites, em prisões, em tumultos, em trabalhos, em vigílias, em jejuns, na pureza, na ciência, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça à direita e à esquerda, por honra e por desonra, por má fama e por boa fama; como enganadores, porém verdadeiros; como desconhecidos, porém bem conhecidos; como quem morre, e eis que vivemos; como castigados, porém não mortos; como entristecidos, mas sempre nos alegrando; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo.” (II Coríntios 6:4-10)