Arquivo para 4 de June de 2005

O fogo do Senhor

Saturday, 4 de June de 2005

“Porque o Senhor vosso Deus é um fogo consumidor, um Deus zeloso.” (Deuteronômio 4:24)

“E apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo do meio duma sarça. Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia; pelo que disse: Agora me virarei para lá e verei esta maravilha, e por que a sarça não se queima. E vendo o Senhor que ele se virara para ver, chamou-o do meio da sarça, e disse: Moisés, Moisés! Respondeu ele: Eis-me aqui.” (Êxodo 3:2-4)

Esses dois textos são interessantes, não só por sua descrição de Deus, mas também por seu caráter aparentemente contraditório. Se Deus é um fogo consumidor, como então a sarça não se consumia? Que tipo de fogo consumidor é o Senhor?

Primeiro, podemos confirmar na palavra o caráter consumidor do fogo de Deus, em pelo menos dois textos:

“Ora, Nadabe, e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário e, pondo neles fogo e sobre ele deitando incenso, ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que ele não lhes ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor, e os devorou; e morreram perante o Senhor.” (Levítico 10:1-2)

“Então saiu fogo do Senhor, e consumiu os duzentos e cinqüenta homens que ofereciam o incenso. Então disse o Senhor a Moisés: Dize a Eleazar, filho de Arão, o sacerdote, que tire os incensários do meio do incêndio; e espalha tu o fogo longe; porque se tornaram santos os incensários daqueles que pecaram contra as suas almas; deles se façam chapas, de obra batida, para cobertura do altar; porquanto os trouxeram perante o Senhor, por isso se tornaram santos; e serão por sinal aos filhos de Israel.” (Números 16:35-38)

Há alguns aspectos interessantes nesses textos. Devemos começar entendendo que Deus, como fogo, consumiu o que pode ser queimado. Nesse caso, Deus consumiu completamente o pecado e a corruptibilidade; os homens pecadores nos dois textos acima foram instantaneamente consumidos.

No entanto, no segundo texto, vemos que há algo que sobrevive ao fogo: os incensários daqueles que haviam pecado. E não só esses incensários haviam sobrevivido, mas agora eram santos, e serviriam de memorial para os filhos de Israel. Assim, se o fogo consome o que deve ser consumido, ele também purifica o que sobrevive ao fogo; se nele há juízo, também há santificação.

Voltando ao episódio da sarça ardente, precisamos também entender que há um significado especial em muitos dos lugares em que a expressão “o anjo do Senhor” aparece. Vários teólogos dizem (e é também minha opinião) que em várias das ocasiões, isso é uma aparição de uma das pessoas da Trindade em forma corpórea. Pelo comportamento do anjo do Senhor na maior parte desses textos, podemos deduzir que seria uma aparição do próprio Senhor Jesus, ainda não revelado em carne, ainda em sua natureza plenamente divina.

O episódio da sarça é um exemplo disso. Na primeira parte, ele diz que o anjo do Senhor estava no meio da sarça, e depois diz que o Senhor chamou do meio da sarça. Ora, daí se deduz que o anjo do Senhor era também o Senhor; e se enviado pelo Senhor, não poderia ser Deus pai, logo teria que ser uma das outras duas pessoas da Trindade. Como só vemos o Espírito Santo assumir forma corpórea em uma ocasião, e mesmo nesta a forma de um animal (assunto para outro estudo), fica fácil deduzir que, ao menos nesse texto, o anjo do Senhor é de fato a segunda pessoa da Trindade, nosso Senhor Jesus Cristo, já que ele é o enviado do Pai:

“Jesus, porém, lhes perguntou: Como dizem que o Cristo é filho de Davi? Pois o próprio Davi diz no livro dos Salmos: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. Logo Davi lhe chama Senhor; como, pois, é ele seu filho?” (Lucas 20:41-44)

“Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.” (João 6:38)

Essa conclusão é importante para entendermos porque a sarça não se queima. A presença de Deus consome, mas a presença de Cristo salva; se Deus consome, Cristo preserva; a sarça ardia mas não queimava. O que aprendemos com isso?

Aprendemos que, como pecadores, se formos confrontados com nosso Deus, seremos imediatamente consumidos. No entanto, descobrimos que, em Cristo, somos protegidos de sermos consumidos; se estamos escondidos em Cristo, não somos consumidos, mas purificados; não destruídos, mas santificados; se morremos em Cristo, pela fé nele, não somos mais os homens pecadores que são consumidos, mas os incensários que são purificados; somos como a sarça, plena do fogo de Deus, sem sermos consumidos por ele.

“Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento levanta um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; pois aquele dia a demonstrará, porque será revelada no fogo, e o fogo provará qual seja a obra de cada um.” (I Coríntios 3:11-13)

Assim, as nossas obras serão consumidas pelo fogo de Deus; as obras feitas em Cristo, porém, permanecem, e resultam para nós em purificação e santificação. Se alguém está em Cristo, não deve temer o fogo consumidor do Senhor; se alguém não está, ainda há tempo de se achar nele, crendo e obedecendo à sua palavra.

Finalmente, uma vez que o fogo consumidor de Deus passa, algo mais permanece. Não um fogo abrasador e terrível, porque essa é só a manifestação mais externa do que Deus é; como na sarça Deus se revelou pela Sua voz, e não pelo fogo, Deus também o fará conosco. Como vemos em cada um dos textos acima, ao fogo de Deus se seguia Sua voz; e à medida em que Seu fogo consumir em nós o que não lhe agrada, e purificar o que permanece, ouviremos Sua voz, mansa e delicada, confirmando para conosco se as nossas obras são feitas em Cristo.

“…e depois do terremoto um fogo, porém o Senhor não estava no fogo; e ainda depois do fogo uma voz mansa e delicada. E ao ouvi-la, Elias cobriu o rosto com a capa e, saindo, pôs-se à entrada da caverna. E eis que lhe veio uma voz, que dizia: Que fazes aqui, Elias?” (I Reis 19:12-13)