Doença e saúde
“Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.” (Isaías 53:4)
Esse versículo é frequentemente usado para dizer que o verdadeiro crente não pode mais ficar doente, ou tem garantida a cura para qualquer doença, em qualquer situação, independentemente da vontade específica de Deus. Mas será que a Bíblia suporta essa interpretação?
Vejamos a experiência de Paulo, o homem responsável por escrever praticamente metade do Novo Testamento, e um exemplo de vida cristã e abnegação pelo evangelho:
“…e vós sabeis que por causa de uma enfermidade da carne vos anunciei o evangelho a primeira vez, e aquilo que na minha carne era para vós uma tentação, não o desprezastes nem o repelistes, antes me recebestes como a um anjo de Deus, mesmo como a Cristo Jesus.” (Gálatas 4:13-14)
Cabe lembrar que esse mesmo Paulo foi usado por Deus de maneira sobrenatural, inclusive para curar:
“E Deus pelas mãos de Paulo fazia milagres extraordinários, de sorte que lenços e aventais eram levados do seu corpo aos enfermos, e as doenças os deixavam e saíam deles os espíritos malignos.” (Atos 19:11-12)
Como então um homem através do qual Deus curou tantas pessoas podia ficar enfermo? E, mesmo considerando que havia algum propósito nisso, se Paulo tinha a capacidade dada por Deus de curar milagrosamente como fazia, como explicar os versos abaixo, todos escritos por Paulo, falando de homens tementes a Deus como ele?
“Julguei, contudo, necessário enviar-vos Epafrodito, meu irmão, e cooperador, e companheiro nas lutas, e vosso enviado para me socorrer nas minhas necessidades; porquanto ele tinha saudades de vós todos, e estava angustiado por terdes ouvido que estivera doente. Pois de fato esteve doente e quase à morte; mas Deus se compadeceu dele, e não somente dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza.” (Filipenses 2:25-27)
“Erasto ficou em Corinto; a Trófimo deixei doente em Mileto.” (II Timóteo 4:20)
“Não bebas mais água só, mas usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas freqüentes enfermidades.” (I Timóteo 5:23)
Com isso percebemos que a questão não é tão simplista. Sabemos que Deus é capaz de curar; sabemos que grande parte do ministério do Senhor Jesus foi dedicado a curar; porque então ainda podemos ter enfermidades, mesmo depois de crermos? Por que às vezes Deus cura, e outras vezes não?
A questão é que Deus tem um propósito na doença. A doença, como a morte, faz parte da nossa natureza humana, da fraqueza do nosso corpo mortal. A doença, a velhice e a morte são contrastes necessários do homem para com Deus, para entendermos a vaidade que há neste mundo mortal e corrupto, na nossa existência carnal, na nossa natureza humana.
“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está.” (Romanos 7:18)
“Ora, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo Jesus há de vivificar também os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita.” (Romanos 8:10-11)
Assim, a doença, a velhice e a morte servem a um propósito — comparar aquilo que é carnal com o que é espiritual, o efêmero com o eterno, o corruptível com o incorruptível. A doença ainda nos afeta para lembrarmos que ainda somos pó, que dependemos da graça de Deus, e que esperamos por aquele dia em que o que é corruptível será revestido da incorruptibilidade:
“Porque é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade. Mas, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrito: Tragada foi a morte na vitória.” (I Coríntios 15:53-54)
Cristo na cruz nos livrou da condenação do pecado, mas o pecado ainda habita em nosso corpo mortal. Cristo na cruz nos livrou da doença, mas a doença ainda faz parte do nosso corpo mortal. Cristo na cruz nos livrou da morte, mas ainda morremos. E isso porque só quando experimentarmos plenamente a sua ressurreição seremos de fato libertos plenamente do pecado, da doença, da velhice e da morte. Deus pode de fato curar nosso corpo mortal, e quando Ele quiser, o fará; mas, se não o fizer, lembremos de que antes de experimentarmos o poder da ressurreição, precisamos conhecer o poder da morte, e achar nossa vida no único que venceu a morte e o pecado: Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.
“É ele quem perdoa todas as tuas iniqüidades, quem sara todas as tuas enfermidades, quem redime a tua vida da cova, quem te coroa de benignidade e de misericórdia, quem te supre de todo o bem, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia.” (Salmos 103:3-5)
“Mas o que para mim era lucro passei a considerá-lo como perda por amor de Cristo; sim, na verdade, tenho também como perda todas as coisas pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como refugo, para que possa ganhar a Cristo, e seja achado nele, não tendo como minha justiça a que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé; para conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição e a e a participação dos seus sofrimentos, conformando-me a ele na sua morte, para ver se de algum modo posso chegar à ressurreição dentre os mortos.” (Filipenses 3:7-11)
“Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.” (Apocalipse 21:4)