Eu sou do meu amado
“O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.” (Cantares 2:16)
“Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu; ele apascenta o rebanho entre os lírios.” (Cantares 6:3)
“Eu sou do meu amado, e o seu amor é por mim.” (Cantares 7:10)
O livro de Cantares (ou Cântico dos Cânticos) é uma bela poesia, que fala primeiramente do amor de um homem por uma mulher. No entanto, ele também fala, metaforicamente, do amor de Deus por seu povo, de Cristo pela Igreja, da obra da redenção, e dos estágios da nossa vida cristã. E é sobre este último tema que quero falar hoje.
Os três versos mostrados nesse estudo mostram três momentos da sulamita, a personagem feminina de Cantares. Entre o primeiro e o segundo verso acima ela perde seu amado de vista; entre o segundo e o terceiro versos há o reencontro da sulamita com seu amado.
Reparem o primeiro verso. O que vem primeiro? “O meu amado é meu”. E só então “eu sou dele”. No começo da nossa caminhada com o Senhor, há aquele primeiro e novo amor em nós, dirigido de nós para Deus; nesse amor há o sentido de possessão, natural num primeiro momento - por isso dizemos “o meu amado é meu” antes de dizermos “eu sou dele”.
Quando, porém, aquele primeiro momento passa, e o Senhor começa a se esconder de nós para que vejamos as coisas segundo a fé e não segundo a vista, percebemos que não é exatamente assim. Não é meu amor que determina a graça de Deus por mim, e não é meu amor que o faz inclinar-se pra mim; percebemos que o amor primeiro partiu dEle, que Ele nos buscou, e que nos cabe retribuir a esse amor; que somos dEle, antes que Ele seja nosso. Assim, num segundo momento, dizemos primeiro “eu sou do meu amado”, e então “o meu amado é meu”.
Quando saímos desse vale para contemplar o Senhor novamente pela fé, como filhos maduros, andando sobre o nosso conhecimento de Deus e nossa fé nEle, ao invés de pela vista (porque andamos por fé, e não por vista - II Coríntios 5:17), então percebemos algo mais. Percebemos que, se há amor em nós, esse amor vem de Deus; que é pelo seu amor que o amamos, como diz João:
“Nós amamos, porque ele nos amou primeiro.” (I João 4:19)
Nesse momento dizemos “eu sou do meu amado”, e “seu amor é por mim”. Percebemos finalmente que somos dEle completamente, e que pouco importa se Ele é nosso; o que importa é que somos dEle, e que Ele nos ama. Ainda que tudo seja nosso, isso nada significa; o que importa é que somos dEle.
“Portanto ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso; seja Paulo, ou Apolo, ou Cefas; seja o mundo, ou a vida, ou a morte; sejam as coisas presentes, ou as vindouras, tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus.” (I Coríntios 3:21-23)
Assim, estejamos onde estivermos na nossa caminhada cristã, no primeiro, segundo ou terceiro verso, lembremos sempre de dizer o que há em todos esses versos: “eu sou do meu amado”, pois fomos comprados por preço:
“Ou não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós, o qual possuís da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo.” (I Coríntios 6:19-20)
E prossigamos até dizermos “e o seu amor é por mim”.
“Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: Isto diz o que é santo, o que é verdadeiro, o que tem a chave de Davi; o que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre: Conheço as tuas obras (eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, que ninguém pode fechar), que tens pouca força, entretanto guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. Eis que farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não o são, mas mentem, — eis que farei que venham, e adorem prostrados aos teus pés, e saibam que eu te amo.” (Apocalipse 3:7-9)