A torre e o rei

“Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se senta primeiro a calcular as despesas, para ver se tem com que a acabar? Para não acontecer que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a zombar dele, dizendo: Este homem começou a edificar e não pode acabar. Ou qual é o rei que, indo entrar em guerra contra outro rei, não se senta primeiro a consultar se com dez mil pode sair ao encontro do que vem contra ele com vinte mil? No caso contrário, enquanto o outro ainda está longe, manda embaixadores, e pede condições de paz. Assim, pois, todo aquele dentre vós que não renuncia a tudo quanto possui, não pode ser meu discípulo.” (Lucas 14:28-33)

Esse é um texto interessante no evangelho de Lucas. Jesus está falando de renúncia, e conta então duas histórias: uma envolvendo um homem construindo uma torre, e outra sobre um rei decidindo se deveria ir em guerra. Mas o que essas duas histórias nos falam sobre renúncia? O que elas nos dizem sobre ser em verdade um discípulo de Jesus Cristo?

É curioso que a primeira torre da Bíblia ficou, de fato, inacabada:

“Disseram mais: Eia, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo cume toque no céu, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra. Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam; e disse: Eis que o povo é um e todos têm uma só língua; e isto é o que começam a fazer; agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Eia, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem, para que não entenda um a língua do outro. Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.” (Gênesis 11:4-8)

Que renúncia há em não edificar uma torre se não se pode edificá-la? Esse texto de Gênesis nos revela isso: “façamo-nos um nome”. Voltando à história que Jesus contou, se o homem não terminasse a torre, seu nome seria zombado; se terminasse, seu nome seria honrado — senão, para que construir uma torre? A intenção dos homens em Babel era fazer um nome para si mesmos; mas o Senhor decidiu intervir, e tudo que restou entre eles foi confusão. Curiosamente, o Senhor ali confundiu a linguagem dos homens, para que um não entendesse ao outro. Que é a linguagem, senão os nomes que damos ao que percebemos e entendemos? Se eles disseram “façamo-nos um nome”, ali o Senhor lhes negou todos os nomes.

Se seguimos a Jesus, devemos então renunciar ao nosso nome. Isso significa renunciarmos à nossa própria glória, nossa própria honra, nosso próprio valor. Significa, em suma, renunciarmos ao que somos, para que Deus seja através de nós e em nosso lugar; assim podemos agir de acordo com o que a palavra nos diz:

“Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Filipenses 2:9-11)

“E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.” (Colossenses 3:17)

E quanto ao rei saindo em guerra? O texto deixa subentendido que quem iniciou a guerra foi o outro rei. Assim, este rei deveria decidir se poderia resistir ao ataque do outro rei ou não. Se sim, deveria sair contra ele; se não, deveria negociar condições de paz. Que renúncia há nisso?

O que acontece é que, por causa do pecado, somos por natureza inimigos de Deus. Considerando que Ele é infinitamente mais poderoso do que qualquer outra coisa (Romanos 9:16,19-20,28), que chance temos contra Ele? Devemos entender que tudo que podemos fazer em relação a Deus é negociar a paz com Ele, porque não há como sair contra Ele.

Portanto, isso significa renunciar à nossa força. Considerando que aquele rei não poderia resistir com dez mil contra o que vinha com vinte mil, ele não podia mais depender da sua força, mas unicamente da benignidade do seu opositor. De semelhante modo, não há nada que possamos fazer para vencer a Deus, ou aplacar a sua ira, senão esperar na Sua benignidade e Sua graça, e aceitar os termos da trégua que Ele propôs:

“A vós também, que outrora éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou no corpo da sua carne, pela morte, a fim de perante ele vos apresentar santos, sem defeito e irrepreensíveis…” (Colossenses 1:21-22)

“Mas todas as coisas provêm de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação; pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores por Cristo, como se Deus por nós vos exortasse. Rogamo-vos, pois, por Cristo que vos reconcilieis com Deus.” (II Coríntios 5:18-20)

E Deus não só pode fazer a paz conosco, mas também edificar pra si mesmo um edifício com pedras vivas:

“…e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do hades não prevalecerão contra ela…” (Mateus 16:18b)

Sabemos que os homens tentaram construir uma torre para fazerem um nome pra si mesmos, e falharam. De igual modo os homens tentarão se opor ao Rei dos reis, mas igualmente falharão (Apocalipse 19:14-16,19-21). Mas quando renunciamos ao nosso nome, à nossa vida, e à nossa força, somos consolados em saber que, ao contrário dos protagonistas dessas duas histórias de Jesus, Deus não só não falha, mas sempre termina o que começa:

“…tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus…” (Filipenses 1:6)

Assim, renunciemos a tudo isso, e sigamos a Cristo, certos de que Deus é capaz do que nos é impossível; e esperemos no Seu nome, no Seu poder, e na Sua benignidade; e sejamos pela Sua graça edificadores do edifício de Deus, e embaixadores do nosso Deus de paz.

“E o próprio Deus de paz vos santifique completamente; e o vosso espírito, e alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama, e ele também o fará.” (I Tessalonicenses 5:23-24)

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