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O gigante que morreu duas vezes

Thursday, 28 de April de 2005

“E Davi, metendo a mão no alforje, tirou dali uma pedra e com a funda lha atirou, ferindo o filisteu na testa; a pedra se lhe cravou na testa, e ele caiu com o rosto em terra. Assim Davi prevaleceu contra o filisteu com uma funda e com uma pedra; feriu-o e o matou; e não havia espada na mão de Davi. Correu, pois, Davi, pôs-se em pé sobre o filisteu e, tomando a espada dele e tirando-a da bainha, o matou, decepando-lhe com ela a cabeça. Vendo então os filisteus que o seu campeão estava morto, fugiram.” (1 Samuel 17:49-51)

Esse é um texto curioso da Bíblia. O texto primeiro nos fala que Golias foi morto pela pedra lançada da funda de Davi; depois, fala que Davi o matou com sua própria espada. Nós temos a tendência natural de achar que há um erro em algum lugar, porque afinal, ou ele morreu na primeira ou na segunda vez.

No entanto, aparentes contradições como essa (e que ocorrem aqui e ali na Escritura) escondem em si sentidos mais profundos. Fica claro pelo texto que Golias morreu por causa do ferimento causado pela pedra; o texto inclusive destaca que “não havia espada na mão de Davi”. Por isso, considerando o ponto de vista do próprio Golias, de Deus, e provavelmente de Davi, Golias estava morto já na primeira menção.

Mas os filisteus viram apenas seu campeão cair ao chão. Ainda que estivesse morto, os filisteus ainda não sabiam disso. No entanto, ao ter sua cabeça cortada, não haveria mais dúvida alguma para os filisteus; afinal, ninguém sobrevive sem a própria cabeça.

Podemos assim entender que a “primeira morte” de Golias foi aos olhos de Deus, Davi, e dele próprio; e a “segunda morte” foi aos olhos dos filisteus, e de quantos mais observavam a cena.

Algo semelhante acontece na nossa vida cristã. Vejamos o que Romanos 6:5-14 nos diz sobre isso:

“Porque, se temos sido unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente também o seremos na semelhança da sua ressurreição; sabendo isto, que o nosso homem velho foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado fosse desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado. Pois quem está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabendo que, tendo Cristo ressurgido dentre os mortos, já não morre mais; a morte não mais tem domínio sobre ele. Pois quanto a ter morrido, de uma vez por todas morreu para o pecado, mas quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para obedecerdes às suas concupiscências; nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado como instrumentos de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como redivivos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça. Pois o pecado não terá domínio sobre vós, porquanto não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.” (grifo meu)

Na nossa vida cristã, é importante sabermos que já morremos com Cristo, e nessa morte passada o corpo do pecado foi desfeito. Isso equivale à primeira morte de Golias. No entanto, ainda cabe a nós nos considerarmos como mortos para o pecado - e isso equivale à segunda morte de Golias; cabe a nós, como Davi, saber que o Senhor já venceu o inimigo sem a nossa espada, mas cabe a nós tomar a espada desse inimigo e deixar clara a vitória a todos ao redor. A primeira morte de Golias nos fala de nossa posição diante de Deus, a segunda diante do mundo; a primeira fala de justificação, a segunda de testemunho; a primeira de teoria, a segunda de prática; a primeira de doutrina, a segunda de vida; a primeira nos fala do velho homem derrotado, mas a segunda, do novo homem triunfante.

Quando entendemos isso, podemos até “perder a cabeça”, como Golias, mas isso não é problema, já que Deus providenciou uma nova: “…antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo…” (Efésios 4:15)